quinta-feira, 23 de março de 2017

DIVAGAÇÃO SOBRE ENVELHECER E QUERER SENTIR TUDO UM POUCO MENOS

Todos os dias acordo mais cedo do que o necessário, é como se fosse uma resposta automática do meu organismo, nunca precisei de despertador, mesmo sendo escandalosamente preguiçosa. Faz um tempinho que acordo às 05h da manhã durante a semana, às 06h no sábado e às 07h no domingo. Não tenho mais saco pra dormir até mais tarde, ou virar a madrugada entre os demônios. É a minha alma idosa se aflorando bem na metade dos meus vinte e quatro anos. 

Nunca me imaginei levantando na hora em que costumava a chegar em casa, principalmente para ir pra uma academia, que é cheia dos tipos que mais detesto. Mulheres que só falam de secar e selfies na esteira e homens que competem em qual usa a regata mais cavada. Eu jurava que nunca teria tempo para participar de uma palhaçada dessas,  no entanto, o metabolismo já não é o mesmo, as minhas coxas que já são gigantes pela própria natureza não podem se dar ao luxo de ficarem ainda maiores. Me engano bem, nunca completei um mês sequer indo malhar todos os dias ou seguindo fielmente a dieta que a nutricionista passou, e que eu deveria ter comparecido na consulta de retorno há alguns meses para acompanhar se houve resultado. Enfim, eu acho que essa disciplina de exercícios intensos e privação de alguns alimentos é coisa pra gente sem sentimento. É, gente que não se importa com nada, que leva tudo numa boa, gente que não tem a mente desgraçada e consegue se preocupar apenas com o próprio corpo. Aquele tipo que ignora mensagem e consegue se isolar de tudo para se sentir melhor. Pior tipo. Eu gosto de estar entre os que vomitam dramas. Me sinto mais à vontade entre os perturbados. 

Do lado de cá as coisas não funcionam calmamente, eu sou movida a impulsos e provocações. Desconto raiva e ansiedade no almoço. Meu regime é válido até o meio - dia, às vezes nem dura tudo isso. Alguém me irrita? Eu como. Eu perco 3 quilos? Comemoro num rodízio. TPM? Comida. Comida. Encontros com amigos? Mais álcool e muita comida. É, eu sou uma vergonha.

Essa loucura por querer e não querer tudo ao mesmo tempo e estar acelerada pode ser culpa da TPM, é a época em que eu mais sinto vergonha de mim. Normalmente eu já não sou muito segura comigo, eu me acho grande demais e sempre que alguém me elogia eu sinto que é tudo fruto  de uma grande  tiração  de sarro e procuro as câmeras dá Record, alguém  me desejar é coisa pra pegadinha. Não  é real, eu não sei acreditar. Só sei sentir fome, como se eu tivesse passado uns 40 anos me alimentando apenas de luz nos montes contemplados por budistas. Destruo ainda mais as coisas ouvindo sempre a mesma música, a mesma balada no último volume inúmeras vezes, tudo para foder ainda mais com a minha cabeça. Pra me deixar como lixo no chão, e assim, talvez, eu comece a me sentir melhor.

Os sentidos se afloram, eu não sou boa em externar sentimentos, não sei pedir colo, mas peço. Ridiculamente. Meu olfato aguça, é cheiro de sangue em todos os lugares. Mesmo desperdiçando litros de Lucretin, creme no corpo, perfume na roupa, e não de nada adianta. Apenas sangue, e na minha cabeça todos sentem e me olham, como se fossem caçadores de bruxas na Idade Média. Talvez seja mais um dos meus dramas, mas a sensação é essa. Parece que todos sabem o quanto sangro e não desviam os olhos, condenam, provocam e ferem. Não respeitam meu sono, que como já disse, há tempos está desregulado.
A única coisa que consigo controlar é a época da maldita tensão pré menstrual, sempre em início de semana, nos finais de semana eu busco a cura. Queria poder controlar a intensidade disso tudo que tem aqui dentro. Desejaria sentir tudo um pouco menos. Menos vontade, menos medo, menos fome. Eu queria ser menos.
Hoje estava voltando do almoço para o trabalho, fazendo graça com as dores de corpo que só aumentam e me fazem andar igual uma pata atrás do metrô lotado. Quando eu me sentia jovem, evitava ao máximo me enfiar num trem abarrotado de pessoas tão desgraçadas e mal cheirosas quanto eu, já não posso mais fazer isso. Há horários para cumprir e me sujeito a qualquer sacrifício para chegar alguns minutos mais cedo ou poder passar um dia inteiro em casa. Enfim, ao reclamar das minhas dores sentidas um desconhecido me disse pra não ficar fazendo aqueles trejeitos de me abaixar e passar as mãos na perna com cara de dó na rua, pois se continuasse a dramatizar ele iria me pegar no colo e cuidar de mim na casa dele. Tem graça... O pobre velho certamente não aguentaria segurar uma perna minha, mas minha carência acumulada causou risos em vez de resolver a cantada idiota na maneira do vai tomar no seu cu. Eu já não me lembrava como era despertar a libido de alguém. Mesmo sendo um típico cara que poderia enfiar o pau de qualquer jeito em qualquer mulher, satisfazer somente a si e agradecer aos deuses pela oportunidade.


É uma sensação estranha a carência. Faz tempo que não sinto tesão em nada, nem em ninguém, nem mesmo em mim. Mesmo que por dias eu precise apenas de orgasmos e alguns trocados para tomar café. O tesão não vem, está cansado ou saturado de insistir sempre nas mesmas piras. Dinheiro e orgasmos eu posso conseguir sozinha, o que eu não encontro é motivação para ganhar e gozar mais. Eu não me deixo ficar umedecida. Não há quem provoque meus instintos, e isso entristece. Quem sabe eu esteja doente, sei lá. Passei muito tempo sem estímulos, acredito que estou desacostumada a me excitar, desejo mais carinhos e palavras de afeto do que uma foda homérica. Estou carente de cuidados, é isso. Mentira, eu quero estar entre afagos, chupadas, beijos quentes e penetrações lentas. Algo assim, simples e carinhosamente selvagem.  Quem me entende?  Socorro!  Já não sinto mais nada, só consigo sentir distâncias. Distância de pertencer ao tesão alheio, distância de fazer falta, distância. E mais distância. É a indiferença alheia me matando aos poucos, sou de pouca importância. Vou me deixar morrer um pouco, sem suplicar por salvação. Foram tantos "não te quero" que pra falar a verdade, já nem me importo mais. Eu sofria antes do tiro e velava um corpo antes mesmo de receber o atestado de óbito. Isso tudo é coisa que necessita de ânimo, ações impensadas e reações impetuosas. Deixo as minhas neuras e sofrimentos por ansiedade de herança para os jovens. Não possuo mais forças, com as minhas vontades eu simplesmente envelheci.

quarta-feira, 15 de março de 2017

C'EST FINI

Estava lendo linhas do raciocínio de Freud sobre ciúmes, não estava com ânimo para refletir e permaneci no começo do primeiro parágrafo era algo como "Não há o que se afirmar sobre o ciúme normal, mas é um sentimento parecido com o luto." Foi assim que me lembrei de você, lendo sobre ciúme como se ele fosse o que restasse após a morte.

De novo estou te tratando como defunto, meu caro. Sabe que sou difícil pra esquecer e superar certas coisas, mas não estou bem. Acho que está penando em meus caminhos... Olha, pode descansar em paz. Preciso parar de querer pensar em ti, e se continuar a me assombrar, não poderei deixar que descanse em paz.

De verdade, queria te reviver por um instante. Uma foda que fosse. Transar pra se despedir, quem sabe até conseguiria te matar de vez e seguisse meu caminho por aí vadiando com demônios sem se preocupar minhas aflições e anseios permanentemente desajustados. No entanto, enfraqueci, nem mesmo meu whisky eu encaro mais.  Ando me contentando apenas com doses fracas. Inadmissível!

Nunca fui de respeitar lutos, muito menos de disfarçar crises de ciúmes, gosto mesmo é dos escândalos. Se por acaso algum dia reviver, escandalosamente eu te desejaria no meu café da manhã. Comeria cada órgão seu pra ter certeza de que, mesmo morto,  ainda permanecesse dentro de mim. Queria poder deixar com que você brincasse de me matar e me deixar viver,  entre asfixias e respirações profundas, me bastava te sentir por perto, mesmo que não fosse a única, ainda que me desmaiasse para encontrar com outra... Tenho um ponto fraco por migalhas, desculpa, as poses e falas de pouco casa sempre serão meras máscaras em mim. Se chegasse bem perto poderia decifrar o quão sou totalmente desgraçada das ideias e das vontades.

Vá de reto, siga pro inferno. Leve também minhas roupas rasgadas e esse ciúme idiota de quem consegue te deixar vivo. Pros diabos, você e sua felicidade! Não ressuscite afim de apenas me querer por perto e sem a intenção de me desgraçar , mesmo que os restos me interessem, sua compaixão pouco me importa. Te quero mesmo é com raiva de mim, mas nem isso eu provoco mais.

Tinha desistido de várias coisas, estava com preguiça de certos porres. Acho que é medo de cair na real de que não há vida mais em seus olhos. Já disse que pode parar de penar, vá pro fundo dos quintos. Aprodeça. Esse, definitivamente, é o nosso fim.