quarta-feira, 12 de abril de 2017

A VOLTA DE ÁGATHA À TERRA DOS CONDENADOS

Ágatha estava caminhando sozinha, como fazia há tempos, ia descendo a Rua Augusta em busca apenas de sentar em algum canto e tentar, mesmo que inutilmente, organizar seus pensamentos. Estava toda largada, cabelo sujo, cigarros contados, pouco dinheiro na bolsa, brincos pesados e maquiagem forte. Sequer olhava para os  lados buscando algum conhecido, tinha um destino certo e desabafos profundos, típicos de seus debates imaginários.

De segunda feira à noite a rua não parece tão lasciva, quase todos os bares estão fechados​, os bêbados contidos, e somente os mendigos rondam na fissura por um trago de qualquer coisa, ou um pedaço de carne abandonado que poderia ser o banquete dos cachorros sarnentos que vivem por ali. 

Aquele lugar já tinha visto várias das faces de Ágatha, a louca, a bêbada, a triste e a arrependida. Talvez a rua tenha estranhado receber aquela menina do jeito em que se apresentava, tão só e aparentemente tão frágil. Ela achava que fingia bem, mas os demônios concretados naquelas calçadas sabiam que ela se sentia mal, que pedia salvação a cada tropeço que dava ao avançar seus passos.

Lá pra baixo, quase no número quinhentos, havia um dos locais prediletos de Ágatha. Um espaço em que era permitido se exorcizar do jeito que a vontade permitisse. Ela respirou fundo pra passar em frente, pois as lembranças das últimas vezes em que esteve naquele recinto ainda lhe traziam noites mal dormidas e angústias mal explicadas.

Amarrou os cabelos para que não parecessem tão imundos e se aproximou lentamente de onde antes costumavam ficar as meninas estilosas e tatuadas que tinham fama na internet. Era estranho ver o Inferno tão vazio, aliás, completamente vazio. Pisou no cigarro, soltou a fumaça lentamente e colocou as mãos na cintura:

- O que caralhos aconteceu nesse lugar? Quanto tempo eu estive fora? Mas que merda!

Ficou indignada e passou a correr os olhos em busca de alguém que pudesse explicar o que havia acontecido por ali. Onde estariam os loucos que praticamente moravam entre aqueles espelhos enormes e as malditas paredes pretas? 

Fazendo o caminho contrário, vinha subindo a rua um desses vendedores de drinks. Aqueles que faturam em dia de festa com suas doses de tequila oferecidas num carrinho de mão tão sujo quanto recheado​ de bebidas​ falsificadas.

- Ow, amor! Ei, moço! Vem cá, faz favor?! 

O rapaz veio, pois certamente ela seria sua única chance de venda  por ali. 

- Fala, morena. Vai querer o quê? Tem tequila, vodka, cerveja, cigarro, halls,  amor, carinho, roupa lavada. Que você precisa?

-  De tudo que me ofereceu, mas antes preciso que me responda se esse bar aqui está fechado pra sempre ou estão apenas de férias. Sabe me dizer, coração?

- Olha moça, fechou e faz um tempinho. Sabia não?

Ela coçou a cabeça, respirou lentamente e sentou na calçada.

- Não, mon chér.  "Eu sabia não". Não fazia ideia, estive muito tempo fora desse mundo. Você pode ficar por aqui um pouco me ouvir? Estou precisando vomitar umas coisas e já não tenho mais quem se importe. Acho que preciso de ajuda.

- Dona, eu tô trabalhando. Não faturei um real hoje. E...

- Ah, foda-se! Você está mesmo preocupado em trabalhar? É segunda feira, o dia mais desgraçado da semana. Quanto quer nesse Jack? É falsificado?  

- Não! É de primeira! Te vendo por R$ 250.00

Ela arregalou os olhos que já eram imensos e deu uma de suas risadas irônicas, enquanto procurava os trocados que tinha na bolsa.

- Olha, meus tempos de pagar vinte e cinco reais em cada dose de whisky foram embora. Eu tenho dois reais e cinquenta centavos, tudo em moedas. Não poderei te  ajudar financeiramente. Caso tenha algo mais barato pra me oferecer, serei grata. Mas, se quiser, também pode se sentar comigo e matar essa porra dessa garrafa. Convenhamos, você não vai vender isso. E também, eu sei fazer muitas coisas sozinha, mas beber não é uma delas. Olha, estou te convidando para beber e não sei lidar muito bem com rejeição. Preciso de companhia. Aceita? 

- Bom, falando desse jeito né. Dá até dó. Mas por que, moça? Eu nem te conheço é algum daqueles trotes? 

- De forma alguma. É uma súplica mesmo. Acredite, eu não tenho com quem beber e não bebo só. Logo, há muitas noites em que não encho a cara. Pode me entender? Tem dias que o espírito pede por álcool. Eu falo muito em almas e coisas místicas. Você acredita em algo assim?

- Só em Deus. 

- Já é algo. Mas e aí, não vai abrir essa garrafa, não? 

O rapaz viu que de nada adiantaria se esquivar do papo. Deixou seu carrinho encostado, pegou o whisky e sentou-se ao lado de Ágatha. Mesmo que ele não entendesse os motivos de estar por ali, resolveu parar e ouvir a estranha, poucas noites de segunda feira são feitas para papos e porres, quando elas ocorrem o mais certo é ceder e aproveitar.

- Sabe moça, a senhora não deveria ficar assim não. Tem tanta gente por aí vadiando, bebendo e falando merda. É impossível que não conheça ninguém com quem compartilhar uns copos.

- É, meu querido. Há muitas pessoas por aí. Mas elas não me dão vontade. Compreende? O mundo tá repleto de gente que não te dá vontade de nada. Às vezes nem eu me dou vontade. É esquisito esse mundo. Não que eu odeie estar só, mas é mais gostoso estar mal acompanhada. 

- Oxe! Vontade de que? Tá falando de sexo?

- Hahahaha, também. Mas digo vontades gerais. Vontade de matar, vontade de enlouquecer ou simplesmente de estar por perto.

- Ah sim... Você é bem estranha. - estendeu o braço oferecendo o copo plástico que acabara de encher .

Enquanto dava pequenos goles em sua bebida, Ágatha  continuava com sua divagações pouco conclusivas e repletas de drama.

- Sim, eu sou estranha. Estranha e difícil de conviver. Pelo menos foi que me disseram uma vez. E eu ainda não consegui entender. Olha pra mim, você me acha feia? Acha que passarei o resto da vida sozinha sem despertar desejo em ninguém? Seja sincero. 

Ele matou o copo em apenas um gole. Esfregou as mãos e mandou sem rodeios.

- JAMAIS! Bom, me desculpe. Mas você perguntou. Sua cara é de brava, mas não deixa de ser linda. Eu achei pelo menos, aparenta tristeza... No entanto não é a cara de alguém que vive só. Deve ter um monte de frango atrás de você, tu que não enxerga.

- Frangos... Frangos não me interessam mesmo. Eu falo de coisas de mão dupla, sabe? Veja só, o último relacionamento que tive, se é possível chamar assim, terminou da seguinte maneira. Estávamos num bar ali na Rua Iguatemi, naquela época eu gastava muito e não me importava onde iria, me nutria apenas a companhia. Pois bem, nesse dia estava me sentindo muito linda, poderia ter qualquer um que estava por lá. Mas queria um só. E arrastei esse um pro banheiro mais próximo. E advinha?

- Vocês treparam no bar? Clichê...

- Não dessa vez, apenas chupei. Como se fosse a última vez que chuparia alguém que eu gostasse na vida. Não foi a última, mas a última naquele cara. Entende? Acho que no fundo eu já sentia que as coisas não eram as mesmas, mas relutava e insistia e fazer com que ele sentisse tesão em mim. É uma situação muito ridícula, implorava fodas, já chegava ajoelhando, quebrando tudo, fazendo escândalo, rasgando roupa...Enfim. Hoje eu sinto vergonha. Será que é normal? 

A garrafa estava na metade e os dois pareciam ficar cada vez mais bêbados e próximos. Não havia libido no ar, era uma embriaguez amistosa mesmo. Coisa rara de encontrar, ainda mais sendo dois desconhecidos bebendo pela primeira vez. 

- É... Bem que eu senti que você era meio louca. Mas sente vergonha do que exatamente?

- De mim. Tenho vergonha de ter me exposto tanto, acho que por isso hoje eu vivo me escondendo. Quer saber como tudo terminou?

- Por favor. - Novamente encheu o copo, completou o de Ágatha e se manteve atento às palavras da moça.

- Foi bem moderno. DR via whatsapp, eu queria atenção e sexo, como quase todos os mortais . Mas ele sempre estava com preguiça, ou sem vontade ou ocupado com coisas e mulheres mais importantes do que eu. Isso machucava, mas eu podia aguentar. Mas o nocaute, sabe? Já assistiu Rocky IV? Lembra do soco que o russo deu no Apollo? Então, foi igual. O que me deixou na lona foi a mensagem "Você estava linda no bar, realmente muito linda e em ponto de bala. Mas eu não estava no pique de te satisfazer, desculpa se te deixei na mão naquela noite e em outras. Eu te amo sempre, mas o tesão não existe mais" . Rapaz... entrou no meu peito isso, como se ele tivesse pegado uma faca de cozinha. Até chorei e larguei o celular de canto, não consegui nada depois disso. Pra ser bem sincera, até hoje não consigo.     

- A senhora gostava muito dele, hein viado? Deus é mais. E não teve nenhum carinha depois disso? Ou ficou se guardando? É besteira se reservar, cai de cabeça nas coisas. Ou você tem medo?
  
Ela que sempre falou mais do que o permitido em diversas situações, permaneceu muda por uns instantes, respirou fundo e deixou que as lágrimas lavassem seu rosto.

-Sim. Eu tenho um medo do caralho de ser importante pra alguém e falhar, o foda é que sempre e sempre falham comigo. Mesmo que seja inconscientemente, as pessoas vivem me faltando. Claro que tive outros caras depois disso, e me comeram até melhor. Mas ainda assim, não era a mesma coisa.   

- Mas moça...

Àgatha interrompeu, se serviu e voltou a falar, mas desta vez sem lágrimas.

- Gostei muito das outras transas que tive, me apeguei a elas também. Mas ouça bem, escreva se quiser: Sentir tesão é difícil demais. Dar tesão pra alguém é quase impossível. Agora, perder o interesse...Pff, isso a gente faz em questão de segundos. My dear, meu fogo era saber que aquele maldito me achava gostosa, era saber que ele tinha a noção de que eu faria o que ele pedisse com palavras ou olhares. Eu obedecia. Tuuuuudo. Definitivamente tudo. Psicologicamente, pessoalmente, sexualmente, financeiramente, alegre e tristemente. Adiantou de que? Me diz? De que caralhos adiantou amar?

- Mas ainda assim, moça. Foi ou é amor.

-O amor não existe. Ou nunca se apresentou pra mim.  Talvez eu não tenha fígado pro amor...E acabou o Jack, olha aí. Aliás, olha aí um exemplo de amor. Uma garrafa de whisky vazia é uma história de amor que chegou ao fim. 

- Bonito isso, triste. É de se pensar né... Você que inventou?

- Claro que não! Eu vi isso no instagram uma vez, senti inveja da legenda. Um dia, talvez nunca chegue, eu a usarei em uma das minhas fotos. Mas até lá, aceite esses trocados como presente de casamento da filha de Don Corleone. 

O vendedor, que já estava completamente bêbado, caiu na risada e continuou a afirmar que Ágatha era completamente maluca

- Continue rindo. Acho que você não é um fã de filmes clássicos, isso faz com que nossa conversa termine por aqui. Muito obrigada. Salvou parte da minha noite. 

- É moça, você é muito maluca. Por isso o cara  fugiu. É muita pressão, você não para de falar.

- Correção: Eu não paro de sentir. Bom, até breve. Boas vendas no feriado. O pessoal costuma se exorcizar na semana santa.

       
Ágatha se levantou e seguiu sua trilha, ainda havia mais com que se perturbar e essas coisas precisavam ser vividas, não evitadas. Mandou aos diabos a sensação de impotência, sabia que era grande demais pra isso.  Finalmente se sentia mais aliviada. As boas conversas e as doses fortes a curavam. As coisas pareciam voltar a ficar cada vez mais leves... 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

VOCÊ ME PERGUNTOU SE EU ESTOU BEM?

Tenho andado caralhosamente com as ideias desgraçadas, mais do que o habitual, não sei se é a crise dos vinte e cinco anos que me sufoca a cada dia, ou outra coisa que ainda desconheço o nome, mas que vive a me dar nós na garganta e rir das minhas crises de ansiedade. Nasci chata, velha e rabugenta, não há muito como fugir disso, no entanto,  em alguns dias como os de hoje, que são frios, chuvosos  e  solitários, acordo igual criança abandonada querendo colo e alguém que diga que tudo ficará bem.
Antigamente eu não ansiava pelas sextas feiras, me arrependo amargamente de ter desperdiçado várias delas indo pra casa dormir cedo , ou recusando convites e companhias por pura preguiça e insegurança.  Insegurança principalmente. Não é do meu feitio acreditar que sou boa companhia, eu me menosprezo há séculos, e não sei dizer o porquê. Acho que é medo de ser importante, isso é muita responsabilidade pra mim.  Só tenho máscara e tamanho. Grandes mudanças e acontecimentos me assombram, sei lá. Acho que é covardia o nome disso.

Por tempos fingi não me importar com nada e ninguém,  era como se não houvesse ninguém que fosse o motivo de meus atos. Eu não tinha grandes propósitos, vivia fazendo figuração em outras histórias e me sentia bem com isso. Sempre gostei daquela música que diz que raspas, restos e mentiras sinceras interessam. Vivia de migalhas dormidas, como aquelas que os velhos já cansados de tudo jogam aos pombos nas praças que existem em  toda cidade. Ainda não sei dizer se sou velho, migalha ou pombo. Acho que há uma pequena parcela de cada um me constituindo e aparecendo em cada fase que avanço ou abandono.
Ainda falando sobre sentimentos, há alguns anos descobri que sinto demais e na verdade meu maior desejo era ser uma pedra. A maior inveja que sinto é daqueles que conseguem não sentir nada, esses malditos que se divertem sozinhos, isolam os problemas em vez de compartilha-los, e mesmo assim, contam com uma galera que morre sem a presença deles, enquanto apenas curtem uma folga de tudo e todos. Queria ser uma dessas almas que preenchem qualquer cantinho  e não precisam de nada que as infle. Sabe, esse povo é assim. Eles se bastam. Eu não me basto, mas adorava fingir que bastava.  São tolices...

Hoje eu espero pelo final de semana como se ele viesse me salvar de toda a maldição da Terra, como se com a metade do sábado que tenho de folga e o domingo inteiro viessem para ressuscitar os demônios que deixei dormindo em mim. O clichê dos leitores de Bukowski, o tal do pássaro azul no coração. No final de semana eu tomo poucos goles de coragem pra pedir amparo, coisa simples, gargalhadas e afetos que varam a madrugada. No auge do porre o pássaro maldito ameaça bater asas, e eu digo: Não se atreva. Eu quero ser pedra. Serei de agora em diante apenas pedra. Se aquieta coração, é só mais outro fim de semana, não sua salvação. 

Eu tenho me  abraçado à sobriedade, concentrando os pensamentos somente em minha conta negativada e na falta que faço à ninguém. Nem mesmo a possível advertência pelo atraso no trabalho me motiva a correr, só desejo que tudo isso acabe logo. Hoje é sexta e está chovendo, amanhã a rotina será a mesma, não há com que se importar. Ou fingir. Bom dia.

quinta-feira, 23 de março de 2017

DIVAGAÇÃO SOBRE ENVELHECER E QUERER SENTIR TUDO UM POUCO MENOS

Todos os dias acordo mais cedo do que o necessário, é como se fosse uma resposta automática do meu organismo, nunca precisei de despertador, mesmo sendo escandalosamente preguiçosa. Faz um tempinho que acordo às 05h da manhã durante a semana, às 06h no sábado e às 07h no domingo. Não tenho mais saco pra dormir até mais tarde, ou virar a madrugada entre os demônios. É a minha alma idosa se aflorando bem na metade dos meus vinte e quatro anos. 

Nunca me imaginei levantando na hora em que costumava a chegar em casa, principalmente para ir pra uma academia, que é cheia dos tipos que mais detesto. Mulheres que só falam de secar e selfies na esteira e homens que competem em qual usa a regata mais cavada. Eu jurava que nunca teria tempo para participar de uma palhaçada dessas,  no entanto, o metabolismo já não é o mesmo, as minhas coxas que já são gigantes pela própria natureza não podem se dar ao luxo de ficarem ainda maiores. Me engano bem, nunca completei um mês sequer indo malhar todos os dias ou seguindo fielmente a dieta que a nutricionista passou, e que eu deveria ter comparecido na consulta de retorno há alguns meses para acompanhar se houve resultado. Enfim, eu acho que essa disciplina de exercícios intensos e privação de alguns alimentos é coisa pra gente sem sentimento. É, gente que não se importa com nada, que leva tudo numa boa, gente que não tem a mente desgraçada e consegue se preocupar apenas com o próprio corpo. Aquele tipo que ignora mensagem e consegue se isolar de tudo para se sentir melhor. Pior tipo. Eu gosto de estar entre os que vomitam dramas. Me sinto mais à vontade entre os perturbados. 

Do lado de cá as coisas não funcionam calmamente, eu sou movida a impulsos e provocações. Desconto raiva e ansiedade no almoço. Meu regime é válido até o meio - dia, às vezes nem dura tudo isso. Alguém me irrita? Eu como. Eu perco 3 quilos? Comemoro num rodízio. TPM? Comida. Comida. Encontros com amigos? Mais álcool e muita comida. É, eu sou uma vergonha.

Essa loucura por querer e não querer tudo ao mesmo tempo e estar acelerada pode ser culpa da TPM, é a época em que eu mais sinto vergonha de mim. Normalmente eu já não sou muito segura comigo, eu me acho grande demais e sempre que alguém me elogia eu sinto que é tudo fruto  de uma grande  tiração  de sarro e procuro as câmeras dá Record, alguém  me desejar é coisa pra pegadinha. Não  é real, eu não sei acreditar. Só sei sentir fome, como se eu tivesse passado uns 40 anos me alimentando apenas de luz nos montes contemplados por budistas. Destruo ainda mais as coisas ouvindo sempre a mesma música, a mesma balada no último volume inúmeras vezes, tudo para foder ainda mais com a minha cabeça. Pra me deixar como lixo no chão, e assim, talvez, eu comece a me sentir melhor.

Os sentidos se afloram, eu não sou boa em externar sentimentos, não sei pedir colo, mas peço. Ridiculamente. Meu olfato aguça, é cheiro de sangue em todos os lugares. Mesmo desperdiçando litros de Lucretin, creme no corpo, perfume na roupa, e não de nada adianta. Apenas sangue, e na minha cabeça todos sentem e me olham, como se fossem caçadores de bruxas na Idade Média. Talvez seja mais um dos meus dramas, mas a sensação é essa. Parece que todos sabem o quanto sangro e não desviam os olhos, condenam, provocam e ferem. Não respeitam meu sono, que como já disse, há tempos está desregulado.
A única coisa que consigo controlar é a época da maldita tensão pré menstrual, sempre em início de semana, nos finais de semana eu busco a cura. Queria poder controlar a intensidade disso tudo que tem aqui dentro. Desejaria sentir tudo um pouco menos. Menos vontade, menos medo, menos fome. Eu queria ser menos.
Hoje estava voltando do almoço para o trabalho, fazendo graça com as dores de corpo que só aumentam e me fazem andar igual uma pata atrás do metrô lotado. Quando eu me sentia jovem, evitava ao máximo me enfiar num trem abarrotado de pessoas tão desgraçadas e mal cheirosas quanto eu, já não posso mais fazer isso. Há horários para cumprir e me sujeito a qualquer sacrifício para chegar alguns minutos mais cedo ou poder passar um dia inteiro em casa. Enfim, ao reclamar das minhas dores sentidas um desconhecido me disse pra não ficar fazendo aqueles trejeitos de me abaixar e passar as mãos na perna com cara de dó na rua, pois se continuasse a dramatizar ele iria me pegar no colo e cuidar de mim na casa dele. Tem graça... O pobre velho certamente não aguentaria segurar uma perna minha, mas minha carência acumulada causou risos em vez de resolver a cantada idiota na maneira do vai tomar no seu cu. Eu já não me lembrava como era despertar a libido de alguém. Mesmo sendo um típico cara que poderia enfiar o pau de qualquer jeito em qualquer mulher, satisfazer somente a si e agradecer aos deuses pela oportunidade.


É uma sensação estranha a carência. Faz tempo que não sinto tesão em nada, nem em ninguém, nem mesmo em mim. Mesmo que por dias eu precise apenas de orgasmos e alguns trocados para tomar café. O tesão não vem, está cansado ou saturado de insistir sempre nas mesmas piras. Dinheiro e orgasmos eu posso conseguir sozinha, o que eu não encontro é motivação para ganhar e gozar mais. Eu não me deixo ficar umedecida. Não há quem provoque meus instintos, e isso entristece. Quem sabe eu esteja doente, sei lá. Passei muito tempo sem estímulos, acredito que estou desacostumada a me excitar, desejo mais carinhos e palavras de afeto do que uma foda homérica. Estou carente de cuidados, é isso. Mentira, eu quero estar entre afagos, chupadas, beijos quentes e penetrações lentas. Algo assim, simples e carinhosamente selvagem.  Quem me entende?  Socorro!  Já não sinto mais nada, só consigo sentir distâncias. Distância de pertencer ao tesão alheio, distância de fazer falta, distância. E mais distância. É a indiferença alheia me matando aos poucos, sou de pouca importância. Vou me deixar morrer um pouco, sem suplicar por salvação. Foram tantos "não te quero" que pra falar a verdade, já nem me importo mais. Eu sofria antes do tiro e velava um corpo antes mesmo de receber o atestado de óbito. Isso tudo é coisa que necessita de ânimo, ações impensadas e reações impetuosas. Deixo as minhas neuras e sofrimentos por ansiedade de herança para os jovens. Não possuo mais forças, com as minhas vontades eu simplesmente envelheci.