domingo, 18 de setembro de 2016

A PROTEÇÃO DO ACASO E A VONTADE DE TER ALGUÉM QUE VOCÊ GOSTARIA QUE...

São dias como esses que me deixam de guarda baixa, imersa numa multidão de vontades e desistências. Tudo em meus toques e olhares tem um quê de me ofereça colo, me abrace por um minuto que seja, mas fique por perto. É confuso. Logo eu que poucas vezes quis ter alguém ao meu lado, me pego afundada numa tarde chuvosa de música, sonhos, fumaça e álcool. Querendo algo que jamais tive em minhas gavetas. Amor.

Eu procuro um amor que ame Elis e goze Bethânia. A força, a personalidade e também a fragilidade de ambas. Visto a calça colorida e deixo os cabelos armados pra mergulhar na fantasia tropicalista e pedir aos sete infernos, e também aos céus, um amor esquerdista irritante que debata Chico e cante Caetano, que prospere e venha comigo todo dia, fazendo quase sempre tudo igual, mas que exista e pulse forte, como as guitarras inesperadas de Pepeu, me beijando até a alma com a flor do desejo das batidas de maracujá. Um amor torto, mas que me chame enquanto correr a barca, do mangue ao cais do porto.

Quero um sujeito que saiba ser doce como Gil, mas que tenha também o jeito maluco e a irreverência sarcástica de Raul. Aí eu quero ver, quenhé que vai guentar uma paixão assim. Uma vontade exagerada cresce nas tardes solitárias como essa. Minhas veias inflam e murcham, queimando por um maluco, safado e romântico igual ao Cazuza. Anseio por um homem sexy e cheio de si, um tipo de Jim Morrisson,  louco de ácido ou não, sabendo que pode me despir onde e como quiser. Ah, eu tenho devaneios ridículos e começo a rir de tanta idiotice que passa dentro dessa cabeça.

Admito que tenho uma certa queda por canalhas, por vezes romantizo o que não deveria. No entanto, só estou clamando por um chamego ritmado no funk de Ben Jor, que venha correndo pra me ver toda molhada, linda e despenteada depois do banho sagrado pós um dia cheio de problemas. Que eu seja a nega que dirija o fusca, que ele toque violão me fazendo rir escandalosamente de qualquer besteira. Faça solos de guitarra ou baixo. Seja vocalista ou baterista. Não importa. Eu quero ser a groupie louca, inspiração de versos íntimos e das noites de bebedeira. Estou com sede daqueles amores malucos e sem noção.

Eu procuro um amor que não se envergonhe de rebolar comigo ouvindo Kiss, e dance a dança da mãozinha, com a gravata na cabeça e o copo na mão. Sem o menor temor de parecer ridículo no final da festa de casamento da prima mais bonita com o primo mais velho. Aquele cara que vai entender  meu olhar quando eu, na mesma festa, ir dos gritos de Eeee Macarena aos de Vai Safadão. É isso que peço.

O meu jeito desembestado não permite um amorzinho  que venere a bossa nova, esse estilo é blasé demais pra funcionar por minhas bandas. Eu me apaixono pelo bicho maluco beleza que lambe veias cerebrais e transforma tudo em coisa única. Única, como a forma rude e o timbre inigualável do Tim. Única, como a poesia e o balanço de Alceu. Eu peço, bebo e viajo demais em noites assim. Da Boa Viagem à Praia Vermelha, numa garrafa só. Completamente só.

Me embriago convicta de que mereço um amor que me mantenha como a Deusa que habita em mim. Que tenha a sensualidade do Magal, me chamando e eu indo, sem frescura. Que ligue em mim a vontade de atirar todas as calcinhas pela casa, como se morasse no palco do Show do Wando. Eu quero agarrar, e soltar nunca mais, um rapaz latino americano, sem parentes importantes, aquele tipo que canta Belchior no bar, ou no banheiro, sem preocupar-se com nada. Um amor largado. Amigo de garçom, de bater altos papos cachaceiros sem pé nem cabeça, muito menos conclusão. Um amor de breguice digna de Reginaldo Rossi. Amor bagaceira, mas amor. Tem dias que eu gosto, e quero ser cuidada por tipos assim. Há finais de domingo que esse é o único pedido que não tem nas opções dos meu aplicativos de Delivery. Pediria um tamanho grande de amores como os descritos nas ficções, se pudesse.

Um príncipe das praias, que tivesse toda a sagacidade do Baleiro, a paciência do Lenine e a voz forte do Ramalho. Ah, vai... Nem sou moldada em tanto romantismo assim. Na verdade, minha fome é de um amor demoníaco como a música dos Stones, aquilo que dá vontade de rasgar as roupas e desalinhar os cabelos, abrir as asas e soltar os tigres e os leões no quintal. Pediria pra sentir por alguém, ou que alguém sentisse por mim, a mesma força dos riffs de AC/DC e dos agudos do Tyler. A força que existe e que arrepia apenas aqueles que  passam noites e madrugadas ouvindo, chorando e cantando as baladas de Aerosmith.

Está tudo bagunçado por aqui, isso é tão esquisito, me vem a súbita coragem de cair num amor cheio de briga, bebida e confusão. Imitando a era clássica dos Guns n Roses. Ou então, de enfrentar o meloso drama de negar as aparências e disfarçar as evidências. Amar, entretanto, dizer que não. Isso alimenta a vontade de beber a lá Janis Joplin, viver, dançar e cantar pela paixão, se viciar na droga que é dividir a vida, a casa, os problemas e a cama. Alimenta a coragem, mas dá força ao monstro Hamletesco: Tatuar o nome do amado sendo Amy? Ou ser a deusa solitária, mas sempre desejada, igual a Madonna? O que eu desejo, afinal?

Talvez eu precise de um amante latino, que adore as noites e os vinhos. Que ao pegar em minha cintura deixe meus quadris soltos, como se fosse a Shakira torturando Alejandro Sánz. Ou, quem sabe, eu queira ser um casal típico do Show Business. Beyoncé e Jay Z. Eike e Tina. Sid e Nancy. Jagger e Bowie. Joelma e Chimbinha. Vai saber...

Cá entre nós, caros colegas, eu me casaria com um amor que se afogasse em copos e mais copos de cerveja, que mandasse a lua iluminar meus pensamentos sempre que me sentisse triste. Que explodisse um Raça Negra no almoço de domingo. Aquele tipo que suprisse essa busca. Esse amor, sim. Ia ser pra valer. A vida inteira.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DA NECESSIDADE DE AMIZADES TERAPÊUTICAS NO FINAL DA TARDE

Estudos comprovam que casais que discutem a relação, vivem mais felizes e juntos por mais tempo. O causo desse par não é muito diferente, tirando o fato de que para eles pouco importava viver juntos por muito tempo, estavam juntos no mesmo quarto durante algumas horas e aquilo era o que bastava na ocasião. Seus debates envolviam assuntos políticos, problemas no trabalho, sonhos futurísticos, episódios perdidos de Chaves, filmes de super heróis e as novas animações do Cartoon Network. Nem sempre ouviam as mesmas músicas, mas compartilhavam o apreço por algumas canções marcantes do rock clássico.


A trilha daquela tarde era feita de Creedence, o cinzeiro estava cheio, entretanto, os copos rasgados de tão vazios. Ele não fumava, muito menos bebia tanto quanto a moça. Isso não era um problema. Ambos falavam mais que os ambulantes da balsa que faz a travessia de turistas e nativos de Porto Seguro a Arraial D'ajuda, ou pra quem frequenta o centro de São Paulo, falavam mais que os carinhas que vendem até a mãe na entrada e na saída do Terminal Bandeira. O rapaz, desde o começo instigava a mulher a falar mais, desde fantasias sexuais até aos dias difíceis em casa, ou besteiras televisivas mesmo.  Gostava de falar sempre, mas sua especialidade era puxar assunto pós coito, conversar nus, mas, libertos do tesão, era um jeito de excluir as mentiras dos assuntos:

- Esse motel é caro, né?

No início ela não curtia se abrir muito, evitava que adquirissem muita intimidade. Convicção tola, que logo largou de mão.Viviam algo íntimo, não havia mais o por quê dos não me toques. Estava adestrada e já começava a achar estranho aqueles que pouco falavam da vida ou que quase nunca riam de suas próprias desgraças :

- É. Talvez por ser um hotel com períodos e não um motel. Mas não importa muito, é o mais discreto desses lados, além de ser mais bonito também. 

Ela serviu mais um copo descartável com uma catuaba ridiculamente podre, aliás isso pode ser um tanto quanto redundante, em nenhum lugar requintado serviriam catuaba, menos ainda num copo plástico degraçado. Entretanto, para esse par, a bebida e os copos eram levados na mochila, os encontros nada românticos eram marcados em poucas mensagens. Acreditavam que mesa de bar, drinques e passeios caros, eram nada mais que perda de tempo. Podiam resumir tudo em beber, conversar e trepar em uma visita só, afinal, nisso que se resumiam as relações. Para eles, todas as outras coisas eram de uma tremenda falta de necessidade.

Ele continuou o papo sobre o hotel/motel caro:

- Mesmo assim. Estamos nos primeiros quartos, setenta e cinco reais é muito dinheiro pra ficar só quatro horas. Lá na vila isso é um pernoite.

- Por que tá reclamando? Eu que paguei. E também, não é um lugar podre. O do outro lado da avenida, os quartos são bem na frente mesmo, tem uma porta do lado da mesa da recepcionista. E nem tem ar condicionado, é um horror. Entrada pra pen drive, também não tem. A luz falha, ou fica tudo escuro, ou fica tudo aceso, o banheiro é muito pequeno, é tudo horrível.

Eles caíram na gargalhada e ele bancando o indignado começou um discurso de defesa:

- MEU DEUS! Eu também já paguei, não é só a senhora que paga. E pelo visto já foi em vários motéis por aqui, né?

Enquanto acendia outro cigarro a moça retrucou:

- Não. Foram só dois. Esse aqui e o podre em cima da igreja. Gostei mais desse, pilares em volta da cama, banheiro grande. Sabe que tenho coisas com banheiros né? O banheiro da minha casa é minúsculo, e não importa aonde eu vá, sempre reparo nos banheiros. Acredito que a origem dessa tara tenha nascido daí. Pois bem. Só acho que devemos procurar outro lugar, já até  nos conhecem. A moça lá de baixo nem pergunta o que queremos "'Período de quatro horas, né? Documento, por favor. Vocês podem acertar comigo agora? Débito ou crédito?" eu fico com vergonha, e também, o meu dinheiro está acabando. Setenta e cinco golpes toda vez é muita grana. Fora que nem usamos as quatro horas... Anyway.

- E quando você voltou a fumar? Na vez passada não estava fumando tanto. Estranho. Aconteceu alguma coisa?

Saíam apenas na semana de pagamento, ou quando sobrava algum troco de todas as contas pagas. Não tinham a vida fácil e encontros planejados. Usavam os quartos de motel como terapia. Era uma espécie de happy hour. Transar toda semana era coisa de casal, eles eram apenas amigos. Assim como amigos não sexuais usam a mesa de bar pra desabafar, eles usavam os corpos. E isso funcionava bem.

- Nada que deva te preocupar, mon chér. Saí com uma amiga semana passada, e ela fuma, como não queria ir pra área de fumantes sozinha, a acompanhei. O maço ficou na minha bolsa, e sobraram apenas cinco. Dois, fumei de manhã e três agora. Esse é o último. Depois disso volto a ser saudável. Pobre e saudável.

- É, então seremos dois. Podemos também nos juntar e assim viveremos de amor.

Algumas vezes soltavam suas ironias a respeito de amar alguém. Vivam questionando relacionamentos passados, sempre que a tecla do amor era acionada as conversas pós coito ficavam ainda mais com cara de sessão psicanalítica. Com uma expressão bem indiferente encarou o amigo, descansou o cigarro no cinzeiro, tomou um gole da catuaba chocha, desamarrou e amarrou novamente o cabelo e disse fingindo pouca importância:

- Amor? Que amor? O amor não existe.

Ele riu ironicamente e respondeu:

- Esse discurso de gorda, feia e depressiva. Para com isso! Nem aquelas mulheres que trabalham comigo falam assim, mesmo sendo completamente judiadas, elas acreditam que o amor é importante. Você não precisa falar assim. Não sei o motivo disso. E também não me interessa.

- Você tá me chamando de gorda? É isso? Eu to pelada com você, e está me chamando de baleia. De Free Willy! De Shamoo. VOCÊ ME CHAMOU DE SHAMOO? 

- Você me ouviu? Eu não te chamei de gorda. Te chamei de amarga. Você não é gorda, mas deveria ir pra academia. Ia ficar legal, tem uns peitão, coxa grossa e bunda grande. Afina mais a cintura e nossa! Sensacional! Mas não é esse o ponto, Willyzinha. O ponto é que não há necessidade de ser assim. Eu estava brincando. 

- Ridículo. O senhor é ridículo, viado. Talvez, e ouça bem, apenas talvez, esteja certo. Mas não consigo acreditar... E bem, não importa. O que me incomoda mesmo é o fato de você arrancar minha roupa e depois me chamar de gorda depressiva. Não estou mais falando com você.

--SILÊNCIO  ABSOLUTO. Olhares vagos. Ela apaga o último cigarro e vira o resto de catuaba na garganta. Já não se preocupava com os copos. Virou de lado, fingindo que ia dormir, mais por birra do que por cansaço. --

Era sempre assim, depois de um papo que poderia ganhar muita seriedade, permaneciam quietos. Ele interrompeu o clima sério, voltando a falar do hotel/motel caro.

- Também gosto desses pilares em volta da cama. O chuveiro é muito bom também. Eu não ligo de já conhecerem a gente por aqui, mas devem pensar que somos amantes. Chegamos em carros separados, vai cada um pra um canto... Imagina se elas descobrem as cachaças na sua bolsa, sem contar quando tem coleira também. Você nem tá me ouvindo, né? Tá fazendo birra. 

A bela continuou fingindo estar adormecida, até "despertar" sendo puxada pelo rabo de cavalo, levada até a cintura de seu acompanhante. A toalha que envolvia seu corpo, desprendeu-se, deixando-a novamente nua diante de seu amigo. Os olhares se penetraram novamente :

- Eu te odeio! - Disse ao rapaz que ainda segurava fortemente seus cabelos, sem desviar os olhos do rosto dela e muito menos de suas curvas. 

- Como pode, você transar com alguém que você odeia?  Não acredito nisso! Está blefando. A verdade é que você não passa de uma safada, isso sim. Que? Acaba de dizer que me odeia, mas está me chupando de novo. É isso, mesmo? Não vale os tapas que leva na cara, e acho que vai levar outros pra parar com isso. 

Ela voltou seus olhos para os dele e sorriram sarcasticamente. Tudo estava resolvido. Entraram em acordo as duas partes do caso. Os dois não valiam os tapas que se davam, porém, se divertiam bem assim. Não era necessário pesquisa nenhuma para comprovar que, bem, de certo modo, os estudos estavam corretos. Discutiram a relação e permaneceram mais tempo juntos, fazendo aquilo que realmente importava nas horas que lhe restavam.