quinta-feira, 4 de agosto de 2016

SOBRE CHATICE E SOBRIEDADE

Certamente minha habilidade de empatia não seria aprimorada nem com a ajuda dos maiores mestres Jedi que existem. Se eu estiver sóbria, desista. Sujeita chata sou eu que não acha nada engraçado. Jogos, paixonites, seriados modernos, best sellers adolescentes ou romances eróticos repletos de clichês , macaco prego, tobogã... Acho tudo isso um saco. Talvez eu tenha uns 86 anos e more num corpo de 23, quase 24. Preguiça e dor nas costas.

Poucos desgraçados conseguem com que eu descanse a posição irredutível de chatice, baixo a guarda para esses tipos. São personas raras, confesso, aquelas que desejo estar por perto com ou sem o auxílio do álcool. Deveria mesmo era afastá-las, pois possuem provas o bastante para acabar com a minha vida diante do juízo final, bom, acredito que esses malditos demônios também sejam condenados por muitas outras coisas piores do que as que cometi e cometo, quem sabe é por sermos da pior espécie que continuemos cúmplices. Ou não.

Das várias vezes que caí nos braços da mãe dos desajustados, a Rua Augusta, os deuses me ajudaram a socializar com alguns mortais. Uns logo sumiram e outros permanecem na minha vida até hoje. Já dividi cigarros, mesmo não sendo fumante. Adquiri o hábito de tragar apenas em ocasiões especiais, conhecer almas semelhantes é deveras uma boa ocasião. Um cara já me deixou sóbria, de tão chato. Outro conseguiu curar um porre de tequila, numa transa tão sem ritmo que ainda penso em cobrar de volta os cinquenta reais que gastei naquele quarto fuleiro. Estão me fazendo tanta falta quanto os sexos daquelas noites Augustianas, sem trepar eu vivo bem, mas, ter apenas dois reais na carteira e saldo negativo no banco é o que mais entristece. É pior que Itaipava quente na calçada e falta de assunto entre amigos de décadas. Enfim, lá também beijei as mais variadas bocas, as com gosto de nicotina, as gringas e as nativbas, as com piercings e as nuas, as com gosto de Jack Daniels e também as que exalavam vodka Natasha. Dancei ao som de músicas que não podem faltar no meu dia e de outras que somente estando louca pra ouvir. Deixar tudo de lado e cair no ridículo tem seu lado bom, é exatamente como diz o amor da minha vida "Sociabilizo até bem, mas sempre que posso evito."  Cortei o cordão umbilical, visitar a mamãe não é mais prioridade. Não há necessidade de levar casaquinho, meu edredom me esquenta muito mais, por isso fico em casa.


Acontece que já não tenho paciência pra essas coisas, meus 86, quase 87 anos pesam. A gritaria das crianças me irrita, as festas ficam muito melhores quando canceladas, os encontros sempre podem ser adiados, a vontade de tomar porres e ver gente é nula, nada é mais importante que o meu sono. Menos, é claro, quando se trata de uma foda boa, que arrepia a espinha só de lembrar. O mundo é movido a isso, mando às favas toda a chatice que me domina. Ainda não consigo idolatrar o que todo mundo curte, esses dias tentei assistir uma série que todos estavam comentando e não passei dos sete minutos do primeiro episódio. Entretanto, levo menos de vinte minutos pra aparecer linda, menos chata e excitada para algumas horas de tesão, risadas e um bom papo, do outro lado da vila. Quando tudo acaba, volto ao estado normal e enfadonho. Enquanto eu estiver sóbria, por favor, me deixe dormir. Afaste-se de mim.