sexta-feira, 22 de julho de 2016

ME BASTA SER BONECA

Toda noite de sábado, e às vezes também aos domingos, nós saímos para o nosso show. Sabe, é lindo, junta um monte de gente pra ver, dar risada e aplaudir. Somos o casal mais quente de Ipojuca, ele, meu mestre, e eu, a seguidora fiel de seus passos e quadris. Começa a música e meu moreno me convida para dançar um xote, me tira cuidadosamente da caixa, acaricia meus cachos e olha firmemente em meus olhos. É hora de começar a dançar, tarefa deliciosamente fácil, basta acompanhar os comandos e manter a mirada fixada na dele.
Faz pouco tempo que nos apresentamos para uma platéia com uns casais formados de hora, num sabe? Uns cabras de pra lá do mar, não era gente daqui, tinham a fala gozada, e uns cabelo descolorido. Os bicho eram liso demais, conseguiam moças bem feitas aos pares e ainda faziam com que as pobres turistas pagassem os drinks que por ali eram vendidos, acredito que ganhavam também muitas outras coisas. Homem é um bicho muito do cagado, tiro isso por meu mestre, essa raça consegue tudo que quer por um simples modo de falar ou se mover, e essas bicha, essas mulheres sempre muito inteligentes, caem na rede fácil. Aí é doce, tudo se conquista e tudo se faz em questão de duas ou três músicas.
Aquele que me tem nas mãos não é diferente de nenhum outro rapaz que vocês tenham conhecido. Eu sou a boneca especial para as noites de show, estou em horas boas, nunca reclamo de nada, pra ele não tenho voz, também sou facilmente substituída por um corpo mais quente e uma cabeça pensante. Todos os dias ouço seus comentários sobre as meninas bonitas com quem afoga suas vontades, eu não ligo dele me mostrar as fotos delas, ou trazê-las pra perto de mim, pois, mesmo que eu quisesse, não poderia demonstrar sentimentos, o que resta é escutar mesmo. Esses dias meu amado cavalheiro estava sem dinheiro e mesmo assim a prenda insistiu em dar um passeio, ele com a canalhice mais charmosa dessa terra a chamou de vaca "Você é muito vaca comigo, e gosta de ser. Quando estou dentro de ti é que fica mais vadia. Fica toda minha." Isso bastou para que se aprontasse e pulasse pra fora de casa num tempo só, nem me guardou na caixa, permaneci imóvel e perplexa no canto do quarto. Não permaneci perplexa por falso moralismo, não. Fiquei surpresa com a verdade nas palavras dele e também com a aceitação que a parte do outro lado demonstrou, meu amo falou exatamente o que ela queria escutar, sem introdução e sem floreio. Ele ainda me fará morrer com isso, se eu fosse um ser vivo, claro.
Na volta pra casa, logo pela manhã, ligou o rádio no volume máximo, Alceu, morador de Olinda, pertinho de nós, o que vivia na casa azul, na Ladeira da Misericórdia, cantava sobre a moça bonita da praia de Boa Viagem, que pra mim, era a moça louca da Boa Viagem, porque a orla inteira mostra que é proibido tomar banho de mar ali, que tem risco de ataque de tubarão, que o bicho ataca no raso pois é míope de tudo, jovem, velho, criança e tartaruga, pra ele é a mesma coisa. Entretanto, acho que ninguém liga pra nada e nem acredita nas lendas da cidade, esse povo gosta de dizer que a TV inventa pra aumentar as passagens e prejudicar o turismo na região. Não existe acidente, todos sabem do perigo, do calçadão à Praça Dona Lindu, canto nenhum escapa da desgraça que fizeram no mangue de Recife, enfim... Eu, mesmo não sendo de carne, osso e sensações, jamais me atreveria a andar por aquelas bandas.
Meu homem estava radiante, o passeio deve ter sido ótimo, recheado de gritos e sussuros, risadas fora da lei e fora de hora, além de histórias que eu ouviria por muitas e muitas tardes. "Minha morena linda, minha boneca, nós não vamos dançar hoje. Vamos fazer amor no meio da Beijupirá, na frente de todos. Dos nativos e dos turistas. Aquela música que tu gosta, que zabumba bumba esquisito. Vou deixar nossos corpos coladinhos, seremos um só, mistério, segredo e muito mais" .
Se eu pudesse abrir um sorriso, faria de bom grado, mesmo com todo ciúme que não sabia que podia sentir, e muito menos demonstrar. Tudo em mim é pano costurado e forro, até pra ficar em pé eu precisava dele. O observei do meu canto, preparava o café enquanto fumava calmamente seu cigarro. Desejei que me tragasse também, que falasse comigo, quem dera eu pudesse ser quente como sua bebida e percorrer sua garganta para morar mesmo que por segundos em seu corpo, queria que me desejasse, assim como teve vontade insana da mulher que o bancou, ouviu, gemeu e inflou seu ego na noite passada. Isso não me pertencia, nem de verdade eu era. A mim pertenciam apenas as noites de final de semana pra tirar um extra no mês e pagar nossas contas, aliás as contas da casa, eu ganhava no máximo um aperto nos peitos cheios de retalhos de algodão e um vestido novo de chita adornado em fuxicos coloridos. E quer saber? Me bastava tudo que acontecia em três ou quatro músicas pra ganhar vida, demonstrar minha devoção por aquele safado que possuía e ditava meus movimentos no meio daquele povo todo e escondido de sua dama de verdade.
Ai quem me dera viver só, viver só juntinho ao lado dele, num amor sem homem e nem mulher. Ser boneca, talvez fosse a única forma de chegar mais perto de seu coração. Nascer uma dona de muito mais carne que osso e cheia de sentimentos não servia pra mim, não. Eu gostava mesmo era das noites quentes de sábado e não das fugas rápidas dos dias corridos e tediosos da semana, principalmente aqueles que caíam na segunda e na terça - feira. Quero ser boneca de pano, dançar, receber aplausos e ouvir histórias. Ter o poder de não chorar e a graça congelada num olhar e sorriso permanente. Meu sonho era sermos dois mamulengos dançarinos, melhor, deixa como está. Delicioso mesmo era ganhar vida somente enquanto estava em suas mãos.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

UMA SEMANA E MAIS SEIS MESES

Faz apenas uma semana, mas parece tempo pra caralho. Hoje completa uma semana inteira que não nos falamos, e junto com a semana, a metade do ano, as páginas mais frias de uma história quase debutante. Meio ano que as conversas jamais foram as mesmas, um semestre sem a rotina de ouvir sua voz rouca com sotaque forte e aguardar ansiosamente os finais de semana pra te encontrar e dançar nossas músicas favoritas. São sete meses sem cair na gargalhada com suas sandices, sete folhas e meia de um calendário sem ficar brava com sua indiferença, sem hipnotizar observadores alheios, sem fazer cena de ciúmes com suas novas amizades, sem sua presença, sem nada. Um período temperado com condimentos fracos e servido morno, sopa pra doente tem um sabor melhor que isso. Meia dúzia de ovos crus num copo, gosto horrível, mas que faz bem a longo prazo. Eu sinto sua falta, mas eu me acostumo. Sempre me acostumo.
Poderia colocar meu orgulho na privada e dar umas três descargas, dando zero fodas para a falta d'água e te colocar de novo nas prioridades do meu dia, porém, contudo, todavia, já não tenho forças pra isso. Acho que a preguiça é maior que todas as minhas vontades, ou talvez seja o medo de ouvir suas respostas frias novamente. "Sempre acontece alguma merda, por isso não ligo pra nada e estou sempre suave", invejo esse dom. Sempre ligo pra tudo, nunca fico de boa. Isso que me mata.
Então, agora irei comemorar meu ano novo, aprendi com seu jeito que de saudades ninguém morre, e isso saiba que irei sentir nas próximas cinco folhas que restam para o ano acabar. Não sei se devo pedir desculpas pelos dias em que falei que não queria amor e desejava apenas transar bastante, talvez eu quisesse carinho, quem sabe eu queira ainda. Acontece que não acredito no seu sentimento, acho que ele vem em lapsos, você diz que ama, você larga, você não se importa e crê que isso é liberdade. Isso me deixa confusa, acho pouco que prefira admirar minhas fotos do que sentar-se junto a mim para jogar conversa fora ou morrer num abraço, do que ficar sem respirar nos segundos que antecedem o gozo que meus toques causam em seu espírito, ou causavam "o tesão nem vem sempre, me desculpe, não queria te deixar na mão". Detesto mixarias, coisa nenhuma vale esse papinho de te amo. O seu amor é o próprio, não cabe mais ninguém aí dentro. Não tenho a senha de acesso pra entrar na sua fortaleza, muito menos jeito para pular seus muros, e caso isso um dia aconteça, seus guardas armados de pouco caso me matariam novamente. Já não tenho tantas vidas pra gastar assim, escreverei novas aventuras para minha personagem, serei eu a protagonista da porra toda. Raspas e restos não interessam mais, menos ainda suas mentiras sinceras.
Acredito mesmo nos gestos fortes de ímpeto, aquela falta de controle que sempre nos caracterizou. Sabe... Aprendi a me controlar e por isso não consigo te procurar mais. A reação química chegou ao fim, e é uma pena. Nunca acreditei em nada nessa vida, mas te juro, achei que nossa loucura duraria por séculos. Sei também que tudo isso é balela, eu tremo e choro de te ouvir cantar, eu apago fotos e reviro as lembranças, eu te ignoro somente o tempo em que não vem me procurar, mas, se vier, já sabe..

quinta-feira, 7 de julho de 2016

MORRI DE OVERDOSE DE TÉDIO E NÃO RESSUSCITAREI PRA NINGUÉM, NÃO POR HORA.

Eu choro de vergonha cada vez que me sinto incapaz. Sei lá, talvez esse seja o meu maior fantasma. Detesto demonstrar fraqueza, ou algo similar, e aí não tem jeito... Preciso de goles fortes e uma conversa amena, comigo mesma, ou com quem se importe. -"Quem se importe" não existe, não sem interesse.- sigo com meus monólogos mesmo.
Levantei cedo sem precisão, com medo, mas não chorei, e muito menos procurei abrigo alheio. Isso é lenda no meu mundo. Ando desacreditando de tudo que vejo, isso faz tempo... O desânimo toma conta dessa dança que não tem parada forte e passos bem marcados. Nada mais chama minha atenção. A indiferença me contagiou de tal maneira que não existem mais conversas que eu deseje ter o dia inteiro, encontros que eu espere por semanas ou chamada no celular que melhore o dia. Nada que ouço inspira, excita ou motiva. Minha atmosfera está impotente. Tudo está em linha reta. É um saco! Eu sou toda em curvas e essas paralelas jamais se moldarão aos meus quadris.
Essas palavras que permanecem desconexas, sem exatidão no que desejo falar também, puta que pariu! Que asco! Pra mim agora tudo é apenas vômito. Hoje não quero contar histórias, não espero visita de deusas e muito menos de demônios. Eu quero colo, e espero que adivinhe isso. Deixei de crer em todos e já não faz mais diferença o curso que a vida tomar. A única espera que mora em min é a da chegada de mudanças, coisas e lugares novos pra trazer sorte. O resto eu passo.
Não quero papo.