domingo, 12 de junho de 2016

INIMIGOS PÚBLICOS. CÍNICOS BASTARDOS.

Vamos rosnar e não morder. Embora eu anseie pela marca de seus caninos em minhas coxas, proponho que elas existam apenas nas cruzadas rápidas que nossos olhares encontrarem, somente  nas frações de tempo em que estivermos lembrando das horas e dias que passamos juntos. Me abrace forte e respire fundo ao meu ouvido, assim como antes, mas não dê bandeira que sente falta. Solte um riso irônico como código chave, entenderei e darei seguimento à farsa. Nossa convivência então será pautada na filosofia das artes marciais, saberemos os pontos fracos de cada um e como nos matar, mas não o faremos. Iremos apenas provocar. 

Agora sejamos inimigos verdadeiros, quero que haja desconforto em estarmos juntos, pelo simples fato de sabermos como atiçar as feras que habitam em nós. Mesmo que eu deseje cada veia de seu cérebro pulsando em minha garganta, por mais que eu lembre dos suspiros fortes em cada puxão de cabelo que arrancou minha falsa frieza e me desconcertou diante de mim mesma. Por todas as vezes que me acordou para saciar suas vontades, por todos os apertos de mãos calorosos que demos em nossas chupadas, por nossos pecados observados por Satanás e também pelas doses fortes, porres e orgasmos intensos que compartilhamos. Sejamos cínicos e pacíficos, tão vagabundos e amáveis quanto cães de rua que não mais se acostumam em lares. Enfim, sejamos algo magnificamente podre. Vamos nos tratar como nobres vira latas. Eu suplico!

Leia meus quadris implorando pelos seus, percorra meu corpo com sua língua em pensamento, lance sobre mim seu olhar mais penetrante, permaneça em silêncio. Note nas minhas linhas e em minhas palavras a loucura que provocou nos meus gestos. Observe friamente. Sorria sarcasticamente. Veja no que me transformou. Judie. Tripudie diante disso, sei que te  diverte - De certa forma a mim também -

Já que não pode mais prender minha coleira aos pés da cama, e nem possui mais as chaves de minhas algemas, por favor, lembre-se de mim como a louca que encantou, incendiou e assustou parte de suas noites. Você me deu espaço para entrar na sua vida, consentiu que me aproximasse e acolheu minha insanidade tão comum a sua. Talvez seja por essas coisas que eu te deteste, te queira longe, e mesmo assim, ainda peça por sua respiração em meus pulmões. Quem sabe seja por essas suas sandices que eu não saiba me comportar sem ti e muito menos diante de você. Algo em sua aura me dá um medo danado e uma vontade tremenda de estar por perto. Me procure pra sempre. Esqueça-se vagarosamente de mim.

sábado, 11 de junho de 2016

DESTINADO A QUEM SE IMPORTA E NINGUÉM MAIS

 Tem dias que ela sente vontade de vomitar tudo o que vê e sente - naquelas batalhas internas que existem apenas em seus roteiros de conversas imaginárias - , porém, logo desdenha de suas crenças e não dá volume às ideias que a perturbam tanto. Não é coisa de momento, raiva passageira, mania que dá e passa feito brincadeira. A moça crê que o amor deixa marcas que não dá pra apagar. Verdadeiramente, sobre esse tal de amor, nada pode afirmar ou concluir. Ela simplesmente não acredita.
Quando sentia o crescimento de uma nascente, dava um jeito de estancar. Prezava muito suas lágrimas, mas ainda mais suas risadas escandalosas. Não desejava sofrer, esse era o seu maior medo. Sofrimento era o nome do demônio que mais a assombrava. Recolhia tudo que a curva do rio pudesse trazer, antes mesmo de ver correr o braço de mar. Era uma louca, quem podia ler sua alma não acreditava. Ela era magia, miragem, milagre. Era mistério. Era qualquer coisa onde não cabia o meio termo. Tinha ódio de relações com prazo de validade.
Já ouviu centenas de histórias apaixonantes, que no seu mundo eram divinas lendas. Escutava sobre declarações, presentes, alegria, suor frio, ataques de ansiedade por estar perto. Já havia sentido isso, nunca em reciprocidade. Como quando pedia bênçãos de Deus e não era ouvida, a fé não valia de nada se as graças não eram alcançadas. Desistiu e se fez indigna de viver essas histórias. Das vezes que presenteou, nada recebeu em troca. Nem material, muito menos espiritualmente. Quando serviu seus melhores drinks, foi abandonada na mesa.
"De onde vem esse povo apaixonado?" "Como são atraídos?" "Bebem e fumam o mesmo que eu?" Ela se perguntava se já fora a alegria do dia de alguém, se era digna de ter um sentimento assim. Mas de nada valiam seus ataques ansiosos, nunca ninguém vertera uma lágrima com o pensamento voltado para seu ser. Aquela mulher, na verdade era uma menina que chorava sozinha sempre que colocava sua fantasia de deusa.
Queria cuidados, mas tinha medo de ser escravizada por seus gestos, de se tornar dependente do outro, odiava isso. Foi ensinada na cartilha que defendia que não devemos usar alguém pra ser feliz, se não nós mesmos. O outro funciona como complemento, não serve de extensão. A lição mais difícil que tinha pra aprender, que não a deixava raciocinar, mas que também lhe rendia notas altas, todas forjadas, contudo, impressionantes. Sempre sozinha. Sempre auto suficiente. Sempre de mentira.
Como podiam existir tantos atos de amor no mundo e ela não pertencer a nenhum? Talvez seus sinais fossem menosprezados por sua falta de fé perturbadora, acreditavam na personagem. Isso adubava as vozes esquizofrênicas que moravam na sua cabeça, mexia nos controles do volume de suas falas. Mas ela as dominava bem entre um gole e outro, uns tragos e algumas lágrimas. "Calem-se, vozes malditas! Um dia as gritarei. Não agora. Não hoje. Shiu! Me deixem enlouquecer em paz". Liga. Pisa na embreagem até o fim. Engata a primeira. Solta o freio de mão. Tira devagar. Acelera. Sai lentamente e controla. Assim seguia fugindo e largava de correr atrás de quem quer que fosse. Corria demais só pra se sentir bem. Talvez odiasse todos, talvez quisesse pertencer a um bom par. Quem sabe não se sentisse digna de tal coisa? Não tinha nem roupa pra usar, ou arrancar, caso alguém um dia dissesse "Vadia, eu te amo" . Uma vez ouviu, mas não acreditou. Não conseguia. A amar era piada. Só podia ser. Era mais fácil acreditar em coisas ruins. Relembrar rejeições era ato corriqueiro, aceitar declarações era torturar seu miocárdio. Sofria de uma perigosa mania de perseguição, pensava sempre estar passando por testes e desapontando todos. Tinha o orgulho maior que os olhos agateados com delineador forte, o coração em pedaços colados com goma arábica, superbonder e durepox. Nada disso, era toda feita em cristal vagabundo, mas podia fingir bem aos olhos amadores.
A cadela cresceu ouvindo que era inconstante, que o que falasse em pé não sustentaria deitada. Com o tempo isso piorou, o que dizia no caminho, não confirmava no destino. O que recusava sentada, consentia ajoelhada. Deitada. E principalmente posta em quatro apoios. Achava graça e deixava de lado antigas convicções, jamais pediria perdão ou voltaria atrás. Arrependia-se, para depois fazer de novo, obedecendo a única coisa que podia e queria obedecer: O desejo. Nada mais.