terça-feira, 10 de maio de 2016

ÁGATHA, A VADIA QUE ADOECIA COM A FALTA DE INSANIDADES

Talvez as últimas quatro doses de whisky dessem um fim na maldita dor de estômago que Ágatha estava sentindo há alguns dias. Não lembrava de ter trocado seus remédios, nem mesmo de ter experimentado os temakis quentes de algas borrachudas, típicos de restaurante por quilo, sabem, aqueles que ficam prontos perto da feijoada e dos blocos de arroz que formavam sushis, mas que estão sem peixe, pois em todo estabelecimento que serve todo o tipo de comida há também vários tipos de pessoas, e, entre elas, os malditos que arrancam o falso salmão de cima do arroz. Os adoradores do sashimi de pobre. Enfim, ela comia de tudo, mas não lembrava o que tinha engolido que pudesse destruir seu estômago. Apelou para os chás e para as frutas ácidas, e depois de vomitar o café da manhã e o almoço, tomou um porre forte. Se os porres não a curassem, nada mais poderia.
Havia sumido por um tempo, andou por aí sem rumo, buscando novas ideologias, experimentando novos pratos e enfrentando alguns fantasmas. Descobriu a vida sem o domínio de demônios e se fez sua própria diaba, era mais fácil assim. Cresceu e se reconheceu responsável por suas próprias pragas, desse modo, vencia todas as antigas maldições, que por vezes existiam apenas em sua imaginação.
Não deixou de atender as almas que a procuravam, de certa maneira isso também lhe trazia um tipo de divertimento. As conversas com esses "pacientes" também traziam orgulho. O ser que a ouviu certa vez, que não oferecia espírito em suas fodas e pagava pra não ter nenhum tipo de carinho, havia encontrado uma louca e aceitado suas sandices. Ele enviou mensagens de agradecimento à Ágatha, que mesmo de longe, podia sentir-se feliz pelo efeito que suas palavras levaram para a vida daquele homem. Com a vida dela não sabia o que fazer, de resultado, metia-se em grandes roubadas, e, certamente, a maldita dor de estômago e as ânsias de vômito, eram presentes dessas coisas malucas em que se envolvia.
Ao refazer seus passos para descobrir o motivo do mal estar, lembrou que há pouco tempo estava se alimentando de sangue novo, isso não lhe causou dores. Continuou buscando na memória, e, finalmente encontrou a causa do asco, sua boca encheu d'água somente com a lembrança, o enjôo veio forte. Cuspiu o que pôde e se contorceu para suportar as dores abdominais. Encheu seu copo de whisky e tomou um gole lento. Logo depois da queimação suspirou "Maldito cara saudável me golpeando novamente!". Acontece que Ágatha havia se envolvido com um tipo completamente diferente do seu. De novo. Dificilmente dividia seus dias com pessoas que levam rotina saudável, sem drogas, sem álcool, com horários, exercícios e palavreado sério. Mas, resolveu investir numa nova banca, quem sabe seu pré julgamento estivesse errado? Quem sabe a normalidade tivesse um gosto diferente do que imaginava?
O cara saudável era um porra louca recuperado. Dizia ter aprontado muito, mas com a idade chegando, resolveu viver de maneira mais tranquila. Em outros tempos o papo afastaria Ágatha, mas a moça arriscou suas fichas, entrou no jogo e pretendia ficar enquanto houvesse chances de ganho. Pois bem, ela caiu na segunda partida, quando teve chance de mostrar suas cartas. Nesse caso, deixaria sua primeira impressão, no mundo da vadia que gostava de cobrar por almas, a primeira chupada era a que ficava, e se esforçou para ser bem vista aos olhos do bom moço, que permaneceram fechados na maior parte do tempo. Eles ofegaram juntos e ele só abriu os olhos para pedir que ela o engolisse. Pedido concedido, boca escancarada e final de jogo. Foi mais fácil do que havia imaginado, e pensando ser a vencedora daquela etapa, Ágatha arriscou uma conversa normal com seu parceiro, resolveu falar da vida e ver até que ponto gastaria suas apostas numa mesa mais leve do que as que estava acostumada. Se estivessem num Quiz show, a moça teria rodado a roleta e parado na placa de perde tudo. Além de cobrar por almas, ela se apegava também aos cérebros, viajava em idéias malucas e se entregava em risadas escandalosas vindas de piadas infames, porém, aquela parecia não ser a noite do encontro de campeões, o papo rumou para política, cães e gatos, de um jeito absurdamente tedioso. Pensou em chupá-lo novamente, mas não teve boca, não teve malícia e nem mesmo olhar para isso. Inventou qualquer desculpa para entrar sozinha no chuveiro e acabar com tudo aquilo o mais rápido possível. Entregou a medalha, e recusou o dinheiro do prêmio, não era esse o título que buscava.
Fingiu simpatia até que chegasse em casa, e na manhã seguinte começou a passar mal. Ânsia, pensava na noite anterior e sentia o gosto do cara novamente, cuspia. Isso se estendeu por dias, até que o porre lhe trouxesse forças para levantar e vomitar mais uma vez. Falava sozinha, era a culpada de sua doença. Se sentia culpada, pois adoeceu buscando a cura de um mal inexistente. Vivia entre os errados, e, numa caminhada pelo bom caminho, apodreceu. Era castigo. Demônios não devem andar no céu.
"Mas que diabos! Não foi o primeiro idiota que gozou na minha boca como se fosse o ralo do chuveiro. Pare de frescura!" dizia para ela mesma na frente do espelho. A bronca não melhorava em nada seu aspecto. Piorava, mais emocionalmente do que fisicamente. Não foi o primeiro idiota, mas o único com quem seus males não batiam, não existiam pontos em comum. Ela serviu de ralo mesmo, nas expressões não se notavam sorrisos sincronizados, muito menos cumplicidade na troca de olhares. A cadela abriu a boca gigante para um jato quente de erros, erros que dessa vez não tinham gosto bom. Agora só restava aquele maldito arrependimento pós coito de que estava fugindo há tempos.
"Primeira impressão de nada vale, me sinto um lixo. É bom que o álcool limpe essa sujeira toda da minha mente e tire esse maldito gosto de minha boca. Estou fraca pra essas coisas, chega! Eu não jogo mais. Não aposto. Não luto. Não invisto. É, não adianta baixar o preço, são as almas que me sustentam e sempre irão me sustentar."
Depois de discursar contra seus próprios atos, Ágatha resolveu deitar e isolar-se novamente. Era preciso recuperar as forças, tanto nos porres quanto nas músicas. Ainda não tinha coragem para voltar às noites de farra, preferia madrugadas bem dormidas. Aumentou o som e compartilhava suas doses com Sinatra. Estava mais clássica e quem sabe até bem mais chata. Era isso, não queria o gosto de pessoas comuns, não tinha mais vontade de fingir sanidade. Ágatha tinha muitas inseguranças, e de certa maneira os equilibrados não lhe davam força, a adoeciam e ela precisava mesmo era de quantidades fortes de loucura para se curar.