segunda-feira, 21 de março de 2016

DOS ENSINAMENTOS FAMILIARES: QUEM PROCURA, ACHA!

Cresci levando o ensinamento de um tio da minha mãe e repito suas palavras comigo sempre que estou prestes a fazer alguma cagada. A história é mais ou menos assim, um primo motoqueiro morreu, pois estava sem capacete e sofreu um acidente. Se não me engano, derrapou, caiu, quebrou o pescoço e encerrou sua participação na Terra. Direto, sem escala pra agonizar em hospital ou aparecer no noticiário da tarde. Esse tio, com a sutileza característica presente em todos os seres da família, bradou sem eufemismos para a mãe do defunto que, na minha imaginação, soluçava ao chorar a morte do filho. "QUEM PROCURA, ACHA! QUEM PROCURA, ACHA!". Um jeito grosso e sincero de não estar nem aí para chorumelas, "Seu filho estava sem capacete, minha senhora. Queria mesmo que ele sobrevivesse a essa queda? Sinceramente, ele procurou. Bola pra frente, pois a gente ainda tem mais o que fazer. Tem velório, tem enterro, papelada e amanhã ainda tenho que trabalhar." Pude perceber esse tom de "ele morreu, mas nós não", com os outros tios que conheci em outras mortes que presenciei. Ninguém transa com a morte, ou com o sofrimento. Era algo como combinar um churrasco com os sobrinhos e primos que ainda não conheciam, enquanto o morto era levado para o enterro, ou enquanto os outros choravam no velório. Acho que vem daí a minha falta de sensibilidade pra algumas coisas. Coisas mínimas, advirto. Minha primeira reação com a perda de alguém é gritar. E essa perda pode ser por morte ou não. Depois é a hora quebrar a casa inteira, bater nas coisas, ganhar alguns hematomas e chorar até dormir. Os dias seguintes são mais tranquilos. 

Lembro também da morte de minha madrinha, uma das poucas pessoas da minha família que eu realmente gostava de ter por perto e conversar. Tive a notícia da morte dela no trabalho, foi bem direto "Dessa noite ela não passa, acho que só vão ligar à noite pra avisar, mas, já não está mais entre nós". Deixei minha mesa, entrei no banheiro da empresa, fechei as portas, sentei no chão e comecei a chorar. O choro cessou, lavei o rosto, cogitei ir embora, mas continuei por lá, eu tinha coisas a fazer e nada faria com que ela voltasse à vida. Na madrugada veio a notícia oficial, e então rumei pra outra cidade pra acompanhar todas essas coisas de morte. Acredito que chorava mais por toda mentira contada em vida, sabem, essas coisas de seja saudável, sempre estaremos juntos e tals. Ela era fumante e parou, se alimentava bem, bebia quando queria, cuidava da mãe e dos irmãos, ia sempre ao médico, trabalhava com o que gostava, dava festas maravilhosas, viagens espetaculares, viveu os amores que teve vontade e dizia que mais valia um gosto do que dinheiro no bolso. Pois bem. Morreu de um câncer estúpido. Desde então, não acredito na cura dessa doença. Não acredito em liminares. Não acredito em juízes. Não acredito em vida saudável. Não acredito em nada, não. Até duvido da fé. 
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E acho que passei a duvidar da fé muito cedo, meus pais se separaram oficialmente quando eu tinha uns cinco anos. Quando digo oficialmente, quero dizer isso de assinar papéis e sair de casa. Época em que as mulheres daqui de casa frequentavam diversas igrejas, elas me disseram que se eu pedisse com fé, tudo voltaria a ser bom. Pai e mãe em casa, casamento perfeito... Bom, eles voltaram muitas vezes depois, uma pior que a outra. Talvez Deus não falasse português, ou então, eu não soubesse me expressar. Meu pai me deu de presente de aniversário de 15 anos um "Parabéns, filha. Agora não tem mais como o pai afastar os marmanjos" Bom, eu nunca gostei de festa de debutantes,e a figura paterna super protetora nunca esteve em meus dramas, mas como boa leonina que adora ser mimada com presentes, desejava ao menos o primeiro par de sapatos de salto e um sutiã de renda com bojo, nada mais de personagens fofinhos em peças de algodão. Uns tempos depois tivemos uma briga feia, e eles se separaram. Dessa vez, eu também assinei o divórcio. Nos damos bem os três, via telefone e redes sociais, embora meu velho ainda troque o nome das filhas algumas vezes. Já não ligo mais. O que sobrou disso é a certeza de que Deus não me ouviu mesmo. Aí eu passei a não ter fé em nada que tivesse que ser posto nas mãos Dele. Passei a desacreditar de casamentos, nunca tive um bom exemplo de relação. O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento, como um passatempo, quero mais viver, com aflição.

A fé diminuiu mais ainda quando meu gato morreu, e isso vai fazer um mês, procurei então não acreditar em qualquer coisa fora do nosso alcance. Fatalidades acontecem. Deus não tem nada a ver com isso. Talvez Ele esteja preocupado com as crianças na África, morrer de fome é uma tristeza bem maior do que ter pais divorciados, ou de perder um animal de estimação em um acidente. Morrer de fome e não ter onde cagar e tomar banho é bem pior do que ver alguém morrer de câncer. 
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Assim como o tio mais velho que não conheci, meu padrinho assumiu a postura prática das coisas na morte da minha tia. Cuidou de documentos, fez piadas, nós marcamos festa, nós choramos e seguimos com a vida. A gente não precisava procurar tristeza, se fizéssemos isso, certamente acharíamos e ela não nos ajudaria em nada. Poucos meses depois aconteceram outras mortes na família. Parecia dengue, ou virose. Quatro com o cachorro. Bate na madeira. Com esse monte de coisa acontecendo, tratei logo de fazer tudo que me desse vontade também, pois, se quem procura acha, nada mais justo do que eu procurar algo que me fizesse bem. Um dia de luto, outro de churrasco com desconhecidos. Mais um luto? Então no outro final de semana eu preciso dançar pra espantar os fantasmas. Viagem pra acompanhar um enterro? Preciso de um x-bacon na volta, são 4 horas de ida e mais 4 de volta. Ninguém merece tantas horas num ônibus. Preciso de umas férias de verdade também, não dá pra viajar somente a serviço do choro. Vamos pra Bahia? Sempre quis sair um pouco de São Paulo. Dinheiro é mato. Viver assim é infinitamente melhor. 

Foi desse jeito que também lidei com o fim de algumas amizades. Aliás, o fim de algumas companhias. Tenho por mim que amizades não se acabam, são sempre parcerias. Se elas se esgotam, na verdade nunca foram de grande importância e caso não tenham grande importância, bem, nem precisam ser chamadas de amizade. É um papinho clichê que dá sono - Isso é redundância? - anyway, vale lembrar. 

Há um tempo um cara que era amigo de rolê reapareceu no meu mundo. Fico perplexa com esse povo que faz merda e tenta remanejar as coisas como se nada tivesse acontecido. Caralho! Será que eles não sabem que quem procura acha? Foi assim, ele começou a namorar e sumiu. É bem normal, né? Mesmo eu não gostando de coisas normais, não era um problema meu. O problema começou quando a pausa no sumiços ocorria em períodos de briga com a garota. Isso irrita demais. "Vamos beber?" "Vamos, sábado estarei na Augusta com as meninas" "Ah, não. Tinha que ser hoje. Vou dar um perdido na fulana" "Leva ela, porra. Aí ela já conhece todo mundo e para de graça." "Ah, não. Mas ela causa de mais..." "ZZzzzzzZZzzz" . Isso aconteceu vezes o suficiente pra eu me cansar de reclamações da vida do casal e apagar o cara da minha lista de pessoas suportáveis. Tem uma outra fulana também, herdei do meu melhor amigo - que sempre me presenteia com suas ex's malucas. De duas eu gosto, são boas amigas- , essa só aparece quando tá na merda mesmo. E como eu disse num texto antes, em merda dou descarga. Uma noite eu estava de papo com um amigo, que não vai nadinha com a cara dela, e vimos uma foto da bonita de rolê com outra. A novela mexicana dessa aí é sair de rolê com a ex, do ex dela, que ela chamava de maluco, bem, é complicado, e se eu me estender acaba parecendo indiretinha de adolescente. Duas outras personagens também marcaram presença nessa bagunça toda de gente reaparecendo. A menina que quer me ver morta e sua amiga vuduzeira também solicitaram amizade. Em que mundo estamos? Tentar ser assim me embrulha o estômago, fingir que nada aconteceu é de uma frieza que não me apetece. Me restou rir. Apenas. 

O que quero dizer é que eu não supero as coisas, eu acho que não ligo somente enquanto não tenho notícias. Basta ver pra sentir raiva de novo. Na tortura toda carne se trai, normalmente, comumente, fatalmente, felizmente, displicentemente o nervo se contrai com precisão. E não disfarço, não tem essa de respirar fundo e esquecer. Eu me sinto mal. Uma bosta. Não faz parte de mim procurar o que não estou afim de sentir. Freud explica. Não vou me sujar fumando apenas um cigarro, quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval. E que se foda. 

terça-feira, 8 de março de 2016

A NORMALIDADE NÃO TEM GOSTO BOM, SEI LÁ... APENAS NÃO CABE EM MIM, ELA EMPERRA NO QUADRIL COMO UMA SKINNY APERTADA.

Passei por um tempo no lado correto da força. Aquela vida normal, sabe? Casa, trabalho, trabalho, casa, horários a cumprir, contas pra pagar, rotina. Isso não é pra mim, não mesmo. Precisava errar, precisava de canalhas ao meu lado, mulheres malucas, algo fora do teto comum que estava me abrigando. Enlouquecer deve ser mais um dos meus sobrenomes, ou talvez um novo alter ego. A normalidade não tem gosto bom, sei lá... Apenas não cabe em mim, ela emperra no quadril como uma skinny apertada. Não que eu goste de sair do sério todos os dias, não é isso, mas a personagem serena e correta também não cabe em todos os meus dramas.
O pilar do trabalho se ruiu, ótimo. Um tempo pra mim. O que posso fazer? Várias coisas, acredito. Sumir é a principal delas. Acabou, não tenho mais tempo pra fingir gostos. Não tenho mais vontade de não priorizar os meus sonhos. Abandonei a matilha, cadelas de rua se viram muito bem sozinhas, e, de vez em quando, até escolhem um dono que possa oferecer carinho, comida e companhia. E isso cura qualquer coisa, até a desgraça da rotina. Ferida que seca, caminhos que seguem, mais cervejas pra gelar e alguns pecados deliciosos pra cometer. Por que não? Adaptar-se é uma merda, o inferno é aqui mesmo, então tratemos de nos deitar com o capeta.
Enfrentei também sala de espera de motel fuleiro, nada de beira de estrada - a coisa era pior-, frente de estação do metrô de São Paulo. Linha vermelha às seis da tarde, calor de 27 infernos, tesão guardado por meses. Um caos. Sem poses, sem carão, sem álcool. A atitude mais correta ali era apenas descer do salto.
Fodas insanas e inimagináveis também são de extrema importância para estancar a chatice de uma vidinha padronizada pela atuação de tolerar idiotas e na aceitação de relações medíocres. O gostoso é chupar pra exorcizar, desviar do caminho bom, abandonar o gosto do tédio, esquecer a mesmice e ser esquecida também.
Vou tirar umas férias de tudo pra ser maluca novamente. Ser louca, acho que é só pra isso que ainda estou aqui.