domingo, 24 de janeiro de 2016

O PROBLEMA COM AS PUTAS ESTÁ NA ENTONAÇÃO

O que me faz puta? Sério, me diga. Diga claramente e em bom som, qual o problema com esse adjetivo? Acredito que o maior equívoco com essa palavra curta e de significados diversos seja apenas a entonação. O mal não está na profissão, nem mesmo no meu batom vermelho, muito menos em meus micro vestidos e saltos gigantes.
Meu cabelo longo, ou curto, também não explica esse título. Então, o que é? É por não esconder meu desejo por sexo e apenas isso? É por não mascarar interesse? Se essa é a razão, sinto muito, mas não posso deixar de me excitar apenas pela presença de certos corpos, ou por ouvir algumas vozes. Talvez seja meu palavreado e o jeito de me portar. Eu peço pra apanhar, aguardo ansiosamente por gritos de prazer, ajoelho, dou risadas escandalosas, danço com a música mais alta. Fico porque quero, e somente enquanto quero. Elogios, presentes, carros e mimos materiais não me nutrem. Não há sensação melhor do que sentir o êxtase que o outro tem através dos meus toques. Minha língua. Companhia. Olhares. Arranhões. Tapas. Sussurros. Respiração longa. Gozo. Alma. Puta. Puta? Puta de quem? E pra quem? Me diga, isso é mesmo ruim?
Verdadeiramente as vadias não me irritam, desde que não sejam burras. Aí o problema deixa de ser por vadiagem e se torna questão de não aturar nenhum ser com pouca, ou nenhuma inteligência, mesmo. Putaria não irrita, burrice sim.
E se eu disser que o fato de sugerir uma ida ao bar, apenas para rir da vida, falar besteira, derrubar caixas e mais caixas de cerveja, pagar a conta ou andar por aí sozinha, também não são indícios de que eu cobro alguns dinheiros pra transar. O que me diz? Puta, na mais simples tradução é isso, não é? Cobrar para transar.
Uma vez me disseram que todas as mulheres cobram algo, e também já ouvi que todas se tornam putas e, se isso não ocorre, algo está errado. Vamos primeiro às cobranças. Sim. Eu cobro. E cobro caro, não possuo sangue frio para fixar quantia monetária, mas, peço alma. Atenção. Amizade. Presença. Bom, vendo por esse lado, eu transaria muito mais se taxasse apenas algumas granas por hora. Aí é que vem minha admiração e respeito por putas, entregam-se a corpos, não aos espíritos. Cavalgam friamente, e tudo segue de jeito profissional. Não beijam, com chupada sobe o preço, pra cada loucura mais notas, aceitam cartão e podem emitir nota. Há também quem faça isso gratuitamente, não? Então como distinguir a classe? Melhor, por que menosprezar esse grupo? Segundo, ficar puta da vida, ser chamada de louca, entristecer por carência, passar a tarde fazendo compras, unhas longas, cabelo colorido, ter tesão, rejeitar cantadas baratas, não aceitar carona, rebolar até o chão, se animar com doses Whisky. Apenas coisas que acontecem com todas. Não é uma exclusividade das putas.
A teoria de que o problema com a palavra é apenas a entonação é mais que válida. Roupa de puta, porque você não tem coragem de usar. A puta que roubou o seu marido, bom, talvez ele também não quisesse permanecer.
O palavrão bem contextualizado não ofende ninguém, a palavra puta e suas ramificações: cachorra, cadela, vadia, cretina, gostosa, desgraçada, demônia, delícia, mal criada, maldita etc. O que nos faz putas? E quando isso é ruim? Quando se torna bom? O que cobramos? O que fazemos de graça? A verdade é que basta apenas contextualizar, acertar o tom e pronto. Guerra ou paz. Ofensa ou elogio. Sem delongas, peço de novo que me diga: O que me torna puta? Isso te faz algum mal ou bem?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

UMA PRECE PARA ENLOUQUECER EM PAZ

Adoecer sem a presença de um vírus talvez seja uma das piores maneiras de morrer. Se perder aos poucos, travar batalhas épicas com a ansiedade e desacreditar do mundo. Tudo isso vindo de uma só vez é o soco que leva ao nocaute. Não há saída, a salvação é bater três vezes na lona e suplicar ajuda, repousar o rosto inchado na bolsa de água quente e entregar o cinturão. Esgotam-se todas as forças e a cura não reside no isolamento. É extremamente difícil aceitar essa circunstância, é mais dificil ainda ter ousadia para pedir colo, ter a audácia de mendigar uma adoção, ainda que temporária, porém, de necessidade urgente para alcançar algum conforto.

Esses dias fui a um bar, e a moça da bilheteria me surpreendeu com um "Ué, está sozinha hoje?" , pois bem, eu estava. Péssima coisa a se perguntar pra mim, que sou um poço de complexos. Encontraria alguns amigos depois, mas a questão dela foi um pouco mais fundo do que deveria. Estava sozinha durante todo o trajeto, sem ter quem desse conta de quão perdida a minha mente se encontrava, ou que se preocupasse se eu estava no caminho correto, ou que questionasse ansiosamente pela hora de minha chegada. A máscara de deusa sempre me coube perfeitamente. Batom matte, camiseta dos Stones, juba solta encostando na cintura e ninguém desconfiaria de nada. Até estremecer com uma simples pergunta - sempre as malditas perguntas simples- que desmonta os meus melhores disfarces.


Enfim, bebi e dancei com algumas amigas e encontrei Strutter, que estava linda, e bêbada como sempre. Primeira vez em anos, que não fomos nós duas o centro da festa, que não caí nos encantos da deusa, que me vi só a noite inteira. O que eu queria? Me fiz ausente por longos períodos, mas sem que ela desocupasse o topo de minhas prioridades. Acreditei que não a tirando do meu pódio, também permaneceria entre seu top 10, quem sabe eu ainda fizesse parte de suas companhias favoritas, mas não naquele dia? O fato é que todo aquele ambiente não me seduzia mais, embora ecoasse minhas canções favoritas e estivesse repleto de outras pessoas com quem se alegrar. Tudo é um ciclo, quem sabe seja a hora de romper com as vozes antigas e passar a se encantar com novos e mais graves sussurros?


Resolvi parar, corto o que me faz mal pela raiz, é dificil pra caralho, eu sofro como um diabo, se é que Satã um dia sofreu por algo ou alguém. Acontece que eu tento não pensar e relevar tudo que me entristece, mas a habilidade de não se importar, eu não consegui desenvolver e, generalizando, creio que todos os desapegados sejam verdadeiros mentirosos. A indiferença mata. É uma vadia de sangue frio, que faz cortes hiper sangrentos enquanto gargalha escandalosamente.


Houve uma época em que eu não me importava realmente, andar sozinha pra cima e pra baixo não era um problema pra mim. Agora sinto que o problema não é estar só, e sim, sentir-se só. Da mesma maneira que não me importo em ser ridícula aos olhos dos outros, mas me sentir ridícula é uma das piores sensações que já vivenciei. Ser comum e se sentir comum me enoja, preciso enlouquecer e me falta apoio para seguir com minha insanidade. Onde foi parar a inspiração de minhas loucuras? Em qualquer canto que esteja, descanse em paz, mas, por favor, ressuscite no terceiro dia e mostre-me que não é preciso duvidar da fé.


Em alguns dias, minha maior vontade é de sumir, só pra ver quem sente falta. Drama inválido, há coisas mais importantes para fazer. Então, grito de saudades, invoco demônios, faço um sábado à noite no final do expediente de terça-feira. E não sei de onde tiro essa coragem, quando os últimos acontecimentos me dão incentivo apenas para desistir de tudo.


Desde outubro do ano passado me abstraí de transas corriqueiras, não fossem minhas lembranças e meus sonhos lascivos, diria que agora sou pura e casta. De vez em quando acredito que algumas de minhas neuras sejam apenas carência, e quase, mas um quase milimétrico, caio novamente no conto das mensagens que chegam na madrugada. É outra força que vem pra me salvar, melhor ser virgem de novo, do que se prestar a fodas ruins, bebidas fracas, noites péssimas, depressão pós coito e conversas sem crise de riso. As piores coisas que existem. Só é mais triste não ter com quem se excitar, e piora nos dias em que nem eu me provoco. Preguiça impera, nem meu corpo me anima. Paciência... A gente aprende a viver com isso e chuta o balde quando ele se enche de merda. Paciência.


Mesmo nas mesas sem álcool e nas amizades e olhares não sexuais, pude esquecer por horas tudo que estava me entristecendo. E isso foi bom, uma mesa repleta de amigos vale mais que um coquetel de comprimidos contra doenças praticamente incuráveis e distúrbios mentais inventados pela moda. Perder o medo da fala e vomitar o que embrulha meu estômago: A melhor coisa, coisa mais difícil e necessária. Tinha me esquecido de como é bom ficar de boa, e que assim seja. Amém.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

ÁGATHA, A VADIA QUE PRECISAVA FAZER CONFISSÕES

- Alô?

- Alô?! Oi!

- Oi mô! Como você está? Que saudades! Não nos vemos há mais de um mês quase.Poxa, não faz assim comigo, não.

- Ora, ora, dona Ágatha! A senhora que nunca tem tempo pra mim e vive fugindo.

- É , andei ocupada e cheia de outras coisas pra resolver. Deixei nossos porres de lado, mas lembro de nossas farras constantemente. Pra te ver eu sempre dou um jeito. Vem aqui, estou sozinha hoje, não atenderei ninguém, ou eu vou aí... Tanto faz, apenas preciso te ver.

A respiração do ouvinte e o silêncio eram de causar um ataque de ansiedade na moça. O demônio favorito de Ágatha sabia que algo não estava nos padrões, uma ligação daquele ser quase sempre indiferente, só podia significar um pedido de socorro, uma emergência:

- Que bom ouvir isso de você, mas... - disse

Ágatha não deixou com que ele terminasse a frase. Precisava de forças para falar tudo que a estava atormentando durante o período em que não teve a presença de seu parceiro predileto. Reuniu saliva suficiente para encher a boca e escarrou de uma vez só:

- Sinto muito tesão por você. Não dá pra comparar com os outros. Pela primeira vez estou admitindo meu vício, não consigo controlar. É torturante não ter seu toque. Venha me ver, preciso de carreiras e mais carreiras suas, a abstinência está quase me matando. As outras drogas que uso não me trazem a mesma euforia. Quero uma overdose de você! Me mate! Deixe que eu quase morra, depois me dê uma injeção de adrenalina, assim posso voltar e deixar com que me mate mais, e quantas vezes quiser.

Um longo suspiro foi dado do outro lado da linha, houve uma pausa de alguns segundos, que para Ágatha pareciam séculos, e ele então perguntou:

- E você sofre?

- Como assim, se eu sofro? Não entendi. Explique.

- Bom, se você sofre. Digo, quando você fala que sente muito tesão por mim, significa que não tem prazer com outros. Não estou com você sempre e também não sinto o mesmo todas as vezes que estamos juntos. Quando quer muito uma coisa e não é correspondido, a tendência é a decepção, o sofrimento. Porém, se você sofre, saiba que não é, e nunca será, intenção minha fazer isso. É só o meu jeito mesmo.

A resposta veio como o soco de um campeão mundial dos pesos pesados. Uma sequência rápida de jabs e diretos, pronto, nocaute. Ela não soube como reagir com a falta de reciprocidade na libido que tanto sentia. Revirou as gavetas atrás de um cigarro, serviu-se de uma vodka barata, e enquanto deixava algumas lágrimas fugirem de seus olhos, continuou a se confessar:
- Não sei se sofro, eu sinto ciúmes de te ver sempre ereto e disposto com as outras, e se divertindo loucamente sem estar comigo. É como se você pudesse ter milhões de mim facilmente, enquanto eu te guardo na caixa e trato como ítem único de colecionador. Não te entendo. É só comigo essa frescura?

- Sentir ciúmes também não é algo bom. Sempre que estou sem você, continuo pensando em você. Imagino que está tão bom e logo vem na minha cabeça "Ágatha adoraria estar aqui." Me divirto com as outras, sim, mas seu lugar no meu coração é permanente. É desnecessário esse seu medo de ser substituída, menina. Veja bem, eu te amo sempre, mas o tesão não bate sempre. A última vez que nos vimos, por exemplo, você estava linda, em ponto de bala, e eu não. Mesmo assim, me permiti ser sequestrado e arrastado pro banheiro do bar. Seria um pecado te privar de matar a vontade que estava de me chupar. Sua boca me chupando e seus olhos não desviando dos meus, a melhor sensação que posso ter. A mulher mais independente que conheço torna-se uma cadela submissa ajoelhada diante de mim. Fazer parte da sua loucura é muito bom. Sentir que sou o responsável por seus desejos... Isso é incrível! Mas, às vezes, tenho medo de não dar conta. Me assusta. Prefiro te deixar na mão e negar a foda, do que não te satisfazer. Desculpa.

- Não é necessário ter medo de mim. Obrigada por jogar duro, mas limpo comigo. Não sei mais o que lhe dizer, acho que superar a fase da abstinência é o que me resta. Abri esses sentimentos pois não aguentava mais guardá-los comigo. Não forçarei a barra. Quando sentir o mesmo que eu, sabe aonde me encontrar, e sabe também que sou suficientemente trouxa para atender aos seus pedidos e me internar no seu mundo. Vou tirar umas férias.

- Ah, minha linda, não fale assim. Somos mais que nossas transas, não quero ficar sem te ver. Não seja tão dura, que diabo!

- Eu quero transar com você! Eu ardo num fogo de 37 infernos com sua presença. Suas palavras sempre umedecem as minhas coxas e hoje elas me secaram, entrei em racionamento. Espero que me entenda, é o meu jeito. Vou economizar minhas vontades para quando elas forem recíprocas, não quero mais me excitar à toa.

- Quanto drama! E pare com essa mania de usar minhas palavras contra mim "espero que entenda, é meu jeito", não seja ridícula. Não combina com você. Eu não quero me afastar, não precisa de tudo isso. Pra que essa cena? Só porque não terá a sua fodinha fixa de final de semana? Que coisa! Há coisas mais importantes a se fazer, temos mais coisas em comum para conversar, não quero que se prenda a mim. Tanta gente querendo te conhecer, tantos caras te desejando. Não somos propriedade um do outro. Somos almas livres. O nosso amor só dura por essa liberdade... Amo você além do tesão, te quero não só pra foder. Eu quero estar por perto de maneira tranquila, sem uma exclusiva finalidade sexual.

- Estou de férias. Passar bem.

- Ágatha, para de ser assim. Ágatha?! Ágatha?! Filha da puta... Desligou.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

BARRACA PURURUCAS. AVENIDA BEIRA MAR, ORLA DE PORTO SEGURO, PRIMEIROS DIAS DE 2016.

Dois garçons se preparando para começar mais um dia de trabalho. Barraca Pururucas. Avenida Beira Mar, Orla de Porto Seguro, primeiros dias de 2016:

- Que sol é esse, pai??? 40 graus na sombra hoje na Bahia. Isso é coisa de meu Deus! A praia vai bombar, tamo cheio de turista. Cada mulé, cada pedaço de deixar maluco. E os cara trouxeram dinheiro, viu? Não tem como esse não ser um ano bom.

- Tá massa, negão. De ponta a ponta em cada hotel a gente vê a alegria dos visitantes. E eu acho é pouco, tá só começando, vai ser só vitória, pode escrever aí! Haahaha. Falando em ano novo, passou a virada onde?

- Fui pra Passarela. Rapaz, pense num lugar cheio. Bebi uns capeta com a patroa, aí cê sabe, né? É 1 capeta, 2 capeta, 3 capota! Entramos no ano os dois bonzim, bonzim. Era Psirico tocando, os fogos estourando e iluminando o Buranhém todinho. O povo tava era muito do feliz, num sei se era porque tava tudo bebo, mas óia, tava bem bom. E tinha umas menina lá, meu amigo. Vi uma nega tão linda, que juro por Deus, não sei nem como planta ou onde vende ração pra sustentar um bicho daquele. Se eu não tivesse amarrado já, chegava pedindo pra formar família, isso se ela olhasse pra mim. Num é daqui não. Nem da Bahia de todos os Santos, muito menos do planeta Terra de todos os besta.

- Eeeeita! Tô ligado, é daquelas que pra te dar atenção demora mais que o Expresso Brasileiro que vai pra Cabrália, né não?

- Isso mesmo. E o cabra que tava com ela não era essas coisa não, viu? Era um meia foda, camisa polo e bermuda xadrez, tatuagem de tribal no ombro. E o pior, nego, era de Henna daquelas que Jean faz aqui nas praia tudo, sabe? Tem é graça uma mulher daquela andando com um homem de tatuagem de Henna.

Enquanto eles riam e o pessoal começava a chegar e ocupar alguns lugares, Jaque, a proprietária da Cabana e dona do melhor acarajé da Bahia foi se aproximando e chegando no assunto dos meninos:

- Olhe, nunca dou razão a vocês, mas desta vez vou ter que concordar. Eu mesma, por meus pensamentos de todos esses causos com homens, cachaça e sofrência, baixei uma lei na minha vida: Não mereço nenhum cabra, mas nem unzinho mesmo, que beba menos que eu. Ou que seja menor que eu. Mas, mereço menos ainda, um sujeito que se preste a um tribal fulero de Henna desses que Jeanderson, meu sobrinho, faz. Como um cara pode pagar 30 conto num desenho porco, e num ter um rabisco que doesse, não passar por uma agulha que gritasse. Se fosse pra fazer graça pra criança, vá lá, a gente tolera. Mas, se é só pra pagar de gatão com uma tatuagem de mentira, não dá. Esse cara pede coquetel sem álcool antes de enfrentar um 10 segundos, se bobear nem gosta de cerveja também. Como um porra assim vai conseguir aguentar a Jaque aqui, meus queridos? Não dá jogo, não, nem tem como. Bom dia.

A risada dos três fez eco e completou a beleza daquela manhã que parecia ter sido pintada por algum apaixonado: O sol estava forte, o mar estava calmo, tudo ia acordando aos poucos. Os banhistas, os esportistas e os que estavam apenas curtindo a paisagem se cumprimentavam cordialmente. Naquele lugar não havia espaço para estresse, era um pecado gravíssimo fazer algo além de jogar conversa fora e admirar a praia:

- Dona Jaque, Dona Jaque. Toda boa, sempre com as falas certas. Eu também achei isso. Não que eu seja muita bosta também, não, eu sei que sou um fodido. Mas quando vejo uma prenda boa, como se fosse presente de madrinha rica, com um cara merda, desses que você logo vê que não aguentam o tranco de ter uma mulher bonita, eu fico puto. Eu fico mesmo é intrigado, como pode? Vocês mulheres são muito das estranhas. Vô dizer, assim, se eu fosse mulher, não ia me passar por um cara que é bonitinho só não, ou feio demais, ou bonzinho que aceitasse tudo quanto é capricho meu. Ainda mais se eu fosse um mulherão desses que todo mundo quer ficar por perto. Não casei ainda, pois não achei uma mina que me deixasse ser um bom homem pra ela. Não tenho tempo pra muita conversa, num sabe? A mulher começa a procurar coisa onde não tem, desconfia da sombra, quer me tirar do meu mundo em vez de entrar nele,em vez de construir um mundinho só nosso, e isso é pra apagar o brio de qualquer um. E eu não sou qualquer um não. Eu sou foda. Bebo bem, trepo bem, danço, pago conta, divido problemas, sei conversar, manjo filme e manjo música, tenho minha casa e sei me portar em qualquer canto. Aturo até família careta. Tá afim, Jaque? Sou pra casar. O melhor marido que você pode ter.

- Tu é um abusado de time grande, isso sim! Nós temos é medo de não dar conta do homem. Como posso dizer, bem, a mulher tem medo de ser feliz. É isso. A gente se compara às outras, a gente tem medo das que podem vir. Eu acho que nós não conseguimos aceitar que tem um homem que goste de nossas frescuras, que ature a mudança de humor que temos em hora cheia e hora meia. Que queira sua vida junto da nossa. É difícil, não desligamos a mente jamais, meu nego. Jamais. Eu mesma tô sempre pensando no motivo de alguém querer se amarrar à mim. Toda mulher acha que é pouco, mesmo que seja muito pro homem. Ela pode ser feia, linda, gostosa, toda poderosa, atirada ou toda tímida, não importa. Em algum momento, vai aparecer um que a deixe cheia de dúvidas em relação à imagem que tem dela mesma. Talvez o meia foda que estava com o peixão da Passarela desse uma segurança que a gente aqui nunca vai compreender. Ele deve encher a bicha de elogio, mulher precisa disso também. É bom ouvir um: Tu é gostosa demais, tu é incrível; ou o que eu mais gosto de ouvir : Tu é um absurdo! Sabe como é difícil achar um cara que diga essas coisas no tom certo?

O outro garçom que estava apenas observando e escutando atentamente a prosa dos dois, sorria com o olhar como se lembrasse de algo. Baixou a cabeça concordando com a moça e também deu seu parecer:

- Minha esposa me disse isso um dia. Eu fiquei me sentindo único. Fui chamado de meu homem, ela falou que eu tinha o tom dela. Era o que ela precisava ouvir no começo, no meio e no fim do dia. Nunca fui de tratar mulher com frescura não, tem mano que faz isso. Cobre de elogio, fala bonito, tudo só pra conseguir uns amassos. Nunca funcionou comigo isso não, eu me sinto idiota. Nos casamos, e tenho certeza que ela gosta de mim só por causa desse meu jeito de a tratar sem ser cheio de nove horas. Eu falo, como falo com amigos, antes de tudo ela é minha amiga também. Rolou de ficar juntos pelo destino mesmo, acho que é essa coisa de lua. Você meu amigo, pode falar as coisas mais bonitas que quiser, beber bem, dançar bem, ouvir as mesmas coisas e curtir os mesmos botecos, mas se não for no tom dela, tá por fora. Não consegue nada. Pode temperar, temperar, temperar, mas não come. E não é comer por comer não, é comer e saber que ela gosta de ser saboreada por você. O ego do homem é adubado de coisa assim, saber que a mina que tu quer gosta de estar com você. De roupa e sem roupa. Isso é foda, meu rapaz. Isso é que é a foda. Entende?

Jaque suspirou e deu uma gargalhada, aplaudiu as falas de seu garçom e completou:

- E a gente não diz isso a qualquer um,não. Esses paga lanche aí nunca vão ouvir isso de ninguém. E não é pra fazer florescer ego de homem, meu amor. É que falar o que sente é nosso escape, é assim que externamos os nossos demônios do medo. É o tudo ou nada, ou ele corresponde, ou o cara foge. Tudo se acaba se vivemos num conto de fada. Invista na realidade, neguinho, aí você encontrará a mulher que lhe deixe ser seu homem.

O garçom solteiro riu muito e concordou com os outros dois, mesmo sabendo que seu amigo casado não tinha deixado de reparar na moça que originou o papo, sabia que havia uma força que não o faria entrar na farra de trocar de mulher. Ainda não tinha sentido isso, mas sabia que o parceiro de trabalho tinha uma mulher que o deixava ser o cara, e ele era o cara que a fazia mais mulher. Isso era complicado demais pra sua cabeça, gostava de se divertir, mas no fundo também tinha medo de se sentir especial pras suas garotas. Curtia enquanto deixavam, viva sem preocupações, mas ansiava por algo mais forte. O papo não cessou, continuaram a divagar sobre essas relações.

- Bom, eu passei a virada trabalhando no Axé Moi, show de praia sabe como é, precisava entrar no ano ganhando dinheiro. O mar subiu tanto que molhou meus pés enquanto servia uma mesa. Dá sorte! Vi uns casais desse tipo por lá também, e fiquei bem puto, mas to tentando ver as coisas pelo lado de vocês. Talvez eu me apaixone nesse ano, sem forçar, quem sabe? Como tem que ser um homem pra você Jaque, minha deusa, minha patroa dona desse moreno todinho aqui?? Hein, mãe?

- Olhe, pra mim funciona assim: Cachorros, carros, casas e homens, eu gosto dos grandes. E você, além de ser pequeno ainda, tem é muita mesa pra servir, seu moleque. Bora trabalhar que essa praia não merece gente irritada, e você tá me irritando com essa conversa mole. Bora, bora, bora!

- Oxe, rapaz, tu tá cantando a Jaque do jeito errado, vamo se trocar que o povo acordou de ressaca e quer a cerveja mais gelada de Porto Seguro pra se curar. Vamo, negão! - disse o garçom casado que estava de bem com a vida.

- Aí, depois reclama que não existe homem. Admita que me ama Jaqueline do Acarajé. E a propósito? Dá pra arranjar um vale pra eu sair hoje à noite? Vou sair com uma nega, que papai do céu, é toda boa, toda boa, ela é toda boa... Toda boa.

- Vão trabalhar e chega de papo! Se merecer lhe arrumo um vale. Cara de pau! Aprendeu nada com esse papo,fez foi é eu perder meu tempo... Bora, leve esses cocos na mesa 19 e sem gracinha com as clientes, que daqui já vi que são umas meninas muito lindas, mas tão exalando tontice e vão cair fácil fácil no seu papo torto.

- O quêê?? Aonde que eu ia ficar de graça com cliente, minha patroa? Tamo aqui só pra servir, né não, brother?

O casado e o solteiro seguiram rindo pra mais um dia de trabalho. Jaque sabia que além de todas as brincadeiras havia um bom sujeito em seu garçom descompromissado. Pediu aos seus guias um dia bom, uma paixão pra divertir e um homem pra pertencer. Tudo recomeça, melhor ainda se recomeçasse como as manhãs lindas que aquelas praias ofereciam.