terça-feira, 27 de outubro de 2015

TEMPERE-SE COM MUITA PIMENTA ANTES DE ENTRAR NO MEU MENU

Eu não recuso comida, sob hipótese nenhuma, experimento tudo quanto é porcaria ou especiaria gourmet que me servem. E por comer de tudo, concluí que alguns pratos apenas precisam de mais pimenta do que outros. E quando a pimenta não basta, quando é necessário provocar um sabor diferente, a única coisa que salva é o wasabi com shoyu, mas aquele wasabi satânico, que faz chorar e ao mesmo tempo devorar ferozmente cada pedaço, como se fosse a última refeição decente disponível na Terra. 

Aprendi uma receita, uma espécie de refeição de socorro, fundo de despensa, coisa de rolê do fim de mês. Gororoba simples, mas feita com boa intenção, apenas para matar a fome imensa que o tédio e as situações difíceis provocam na gente. Os condenados a dividir mesa comigo, sempre estão disponíveis no período em que só há esse tipo de coisa no menu do inferno. Fazemos do pouco um banquete, transformamos água em qualquer bebida alcoólica, contamos nossas histórias, dançamos nossos problemas, e em cenas dionísicas, nos esbaldamos em porres deliciosamente memoráveis.

Lembro que uma vez recebi um ser que estranhava esse tipo de festa. A princípio se isolava de todos, mas com o tempo, e também porque diversão gratuita era tudo que lhe faltava, acabou se fantasiando de um de nós, e com isso, degustou a maneira de loucura que só a gente sabe proporcionar. Se assustou, gostou, esqueceu da merda que o encalacrava, vivenciou a presença dos deuses e do diabo. Como toda visita que repara em cada canto da casa e reprova o comportamento dos anfitriões - mas não quer perder a hora do jantar- , permaneceu distribuindo sorrisos amarelos e contando os causos"absurdos" que havia guardado na mente até o momento. 

Por um tempo alertei meus demônios que aquele novato não era como a gente e que dificilmente se portaria como tal. Estava completamente enganada! Bastou uma segunda festa, para que se entregasse à cerimônia alcoólica dos seios das deusas e se mostrasse por completo. Paguei a língua. Presenciei a metamorfose do lado certinho, para o que chamam de pior lado. É isso que eu procuro nas almas que condenam a mim, é disso que gosto. O pequeno ser assumiu então seus vícios, bebia e fumava como gente grande, manjava de coisas excitantes, entretanto, possuía certo amadorismo... Contudo, exibia-se agora sem medos. Ajoelhou e deu a cara a tapa. Ganhou diversos pontos. Ainda não entendo o motivo de esconder esses gostos, essas quedas por coisas que todo mundo teme. Questão de status ou obediência cristã? Quem sabe? 

O que me incomodava no calouro era o fato dele só me procurar quando estava na merda. Nunca sentou-se no divã, pegou uma bebida e me contou algo bom... Normal. As pessoas são assim, só procuram os amigos quando estão na mais profunda bosta. O único problema é que eu não fui treinada para aceitar coisas normais. Em bosta eu dou descarga. Não piso, não examino, não dou tchau. Simplesmente dou descarga. Mando pro esgoto e pronto.

Se meus olhos falassem, certamente gritariam o mal estar que a falta de entusiasmo presente em coisas certinhas me causa. Também não sou besta pra ficar tirando onda de heroína. Coisas bonitas me encantam, sim. O que causa vontade de vomitar, mesmo sem ter comido nada, é isso de ofertar apenas momentos ruins. Adoro dramas mexicanos, decorei falas das novelas exibidas nas tardes do SBT e as uso em diálogos corriqueiros, mas procurar viver o dramalhão e esticar ao máximo os episódios, para que todos tenham pena da protagonista coitadinha e odeiem ainda mais o vilão, é extremamente chato. Desisto de histórias assim, elas só tem graça - e nem tanta- nas telas de televisão. Não me apetece acompanhar essas tramas em prints de celular, nem nas conversas pouco conclusivas que temos em bares. Muito menos nas minhas madrugadas dedicadas aos porres Stônianicos com Satanás. 

Qualificação máxima em mediocridade, é insistir em ouvir causos que não melhoram minhas futuras análises e permanecer em algo que não provoca mais. Eu receitei os maiores pedaços de carne, as doses mais fortes, misturei ingredientes que poderiam resultar num prato muito melhor. Mas paladar pobre é dificil de ser aguçado. Acostuma-se facilmente ao feijão simples com banana. Se recusa a qualquer restaurante sofisticado e também não entra nos sujinhos da Vila. Gente assim não se arrisca no dogão da esquina, mas também não ousa um food truck hipster frequentado pela galera meia boca que se diz fã dessas tendências. Paciência... Paciência? Paciência é o caralho! Não trabalho mais com isso. Nunca trabalhei. Peço que jamais me ofereça apenas o seu menos como motivo de consulta ou como sabor de pizza. Me conte coisas boas, cometa loucuras e venha rir delas comigo. Traga tudo isso com pimenta, por favor. 

Lealdade. Esse é o preço dos pratos por aqui. Mostre-se filho da puta desde o início. Seja como o bacon, que em nenhum momento esconde o mal que pode me fazer, mas também esfrega na minha cara o sabor único que diferencia e torna especial a comida feita pela vó, ao mesmo tempo que caracteriza o pecado da gula nas 10 fatias cancerígenas, obesas e deliciosas, presentes no Ezequiel 25:17. Se você for uma salada, regue-se no charme desgraçado de sentir tudo de maneira verdadeira, enfeite-se com frutas e harmonize-se com os mais variados tipos de queijo. Não esconda suas glórias em segredos de receita, mas também não me ofereça apenas as desgraças presentes nessa guarnição. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

RESTOS DE PRAGA E FOTOS RISCADAS JÁ NÃO ME INTERESSAM MAIS

Eu pedi que não houvesse meio termo em nossa convivência e clamei por sua alma a cada respiração que demos juntos. Jurei não me importar com seu ódio, praguejei sobre tudo o que passamos, e mentindo pra mim mesma, aguardava ansiosamente sua volta. Bradava a todos que não teria medo do reencontro, mesmo assim evitava ao máximo frequentar lugares que você pudesse estar e recusava qualquer trago, qualquer perfume, qualquer porre, qualquer causo ou drama que envolvesse sua presença.

Assim então o desejo se cumpriu, nosso ódio transpareceu nos gestos, todo o entusiasmo de nossas memórias se solidificou no tédio. Não encostamos a cabeça na parede e sofremos a overdose um do outro, todas as promessas tiveram fim e fingimos que nada houvéssemos dito ou sonhado. Sensação de dever cumprido. Desejo saciado, tarefa concluída. Os vampiros voltaram a Gomorra, não há mais sangue para sugar, ou sustentar essa relação.

Segui mais, e bem melhor, sem tua presença. Mas os demônios anunciaram sua volta, e mesmo com medo de fraquejar, permaneci aqui. Isso ainda te doía, pois eu sempre estive. Talvez agora seja compreensiva e menos egocêntrica, mas ainda estou no lugar que você encontrou e deixou. Não que eu tenha passado a aceitar tudo, ao contrário, passei a me importar menos. Seu ar mediano me enojou, provocou risos sob um leve desespero. A felicidade forçada e a tentativa de reaproximação me renderam torções e dores demasiadamente fortes no fígado. Ouvir um convite seu, era como rever um filme ruim. A verdade é que eu poderia tomar porres homéricos com os Bárbaros mais cruéis do vilarejo, mas não voltaria a dividir a mesa com você. Lo siento, eu vivo nos excessos. Eu prezo os escândalos.

Não há mais preocupação em ajudar, nem a necessidade de ouvir seus problemas.Quer fazer merda? Faça merda. A abstinência de nossas conversas diárias cessou. Exclua-me de seus planos, não existe um calendário com finais de semana em que eu possa te ver. As escapadas durante os dias de trabalho também não existem mais. Mudaram os hábitos, gostos e lugares. Nós nos superamos e agora só resta aceitar isso.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

HOJE ESTOU SEM MÁSCARAS

Eu não tive pai herói, sinônimo de autoridade da casa, exemplo a ser seguido e temido por gerações e gerações. Tenho um pai, que é visita, amigo da mãe, ex de mãe, estranho para os amigos, telefonema fixo em datas especiais ou pedidos de favores...  Enfim, não tive relação a dois pra me inspirar e desejar igual, nunca fiz parte de um casamento, nenhuma das relações que vi persistiram, elas apenas terminaram. As partes envolvidas seguiram suas vidas normalmente, melhor do que quando estavam juntas, logo entendi que dividir a alma com alguém é algo complicado, requer muita paciência, mas é também sem demasiada importância, já que pode ser facilmente substituído. Embora eu ache que seja dificil também, e desde cedo detesto coisas difíceis. Talvez seja preguiça, medo, falta de iniciativa ou puramente um apego à superproteção que me blindou contra qualquer ameaça de sofrimento. Eu morro antes do tiro, eu tenho a overdose antes mesmo de comprar a droga, eu choro e fico de luto sem ao menos existir um cadáver. Mato todo o desenvolvimento e escrevo a síntese, presumo um final parecido com os que já li e concluo a moral da história. Não leio a frase toda, adivinho o restante da oração e dou a situação por terminada.

Aqui em casa somos três mulheres, duas que viveram dois casamentos falidos e uma descrente de qualquer tipo de relação. Essa última sou eu, que acredita piamente que está presa na história dos outros e não escreve a sua. Isso quase me mata todos os dias. Mata aos pouquinhos a cada amigo casado, a cada amiga viajando pra dançar fora, a cada porre que não tomei , a cada tatuagem não feita e a cada instante que penso enlouquecer, mas sou barrada pela razão. Alguns talvez não acreditem, mas eu não sou louca o tempo todo. São apenas máscaras, e sempre que estou sem elas choro de medo, um pavor filho da puta de não viver nada querendo viver tudo ao mesmo tempo. A angústia nunca passa, às vezes penso em me livrar dessa sanguessuga pesada, mas de certa maneira ela também me protege. Me ajuda a interpretar a heroína na janela da imponente fortaleza, pregando ser desapegada de tudo, secando qualquer fonte de fragilidade, a deusa, a diaba, aquela sempre pronta pra qualquer adversidade. Isso é, possivelmente, um vício de profissão. Levei a falta de graça e a fantasia utópica dos textos publicitários para minha rotina. Preciso parecer sempre bem e isso basta. Isso não cria demanda para um público que suporta ouvir causos ou dividir as noites para conversar com alguém completamente confuso, não cria solicitações para coisas simples, apenas abre possibilidades para satisfazer coisas efêmeras, felicidade instantânea, vida de comercial de cerveja. O pior é que a armadura às vezes pesa e não há lugar pra tirar, resta ajustar a postura e seguir atuando. Mas atuando pra quem?

Não imagino ser a melhor parte do dia de qualquer pessoa que me rodeia, aliás, eu tenho uma dificuldade imensa para lidar com alguém que realmente goste de mim. Vejo declarações cheias de entusiasmo,  amigos descrevendo as pessoas que admiram, e acho tudo muito lindo e inalcançável, talvez isso é o que me faz odiar momentaneamente qualquer desconhecido da mesa. Não sinto que causo o mesmo, ou que um dia poderei causar, me resta apenas a curiosidade.

 Outro dia saí com uns amigos e tive vontade de baixar a guarda e parar de odiar os randons por uns instantes, simplesmente pela alegria que um demônio apresentou ao descrever a amiga, ao expor os sonhos dela, de estar feliz por conquistas das quais não fez parte, simplesmente por estar contente com a presença da moça. Isso mexeu comigo, não culpei meus pais por não me ensinarem acreditar em relações simples, apenas refleti sobre a sensação que ela dava aquele rapaz, coisa que eu imagino nunca ter dado a ninguém. Digo, fazer com que alguém queira estar por perto de maneira gratuita, sem interpretação, sendo a trava desmontada. Isso me rendeu algumas insônias... É, acho que está na hora de tirar as máscaras e abandonar esse Édipo. Obrigada mãe, pela superproteção. Valeu pai, pelo carinho. Vocês tentaram e quebraram a cara, acho que é a minha vez de tentar e talvez quebrar também.  Quem sabe?

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

ÁGATHA, A VADIA DAS CONSULTAS RÁPIDAS E GROSSEIRAMENTE NECESSÁRIAS

Ágatha estava cansada dessa porra toda, de gente pedindo conselho o tempo todo e das malditas lembranças que apareciam em suas conversas com demônios. Embora já conseguisse falar sobre pragas sem chorar, ainda não se sentia bem lembrando de alguns seres desgraçados que exigiram dela algo que ainda não sabia oferecer, talvez ela merecesse a maldição, talvez apenas tivesse sido mal compreendida. Enfim, buscaria na alma de alguns condenados um compreendimento sobre infortúnio nela lançado. A moça tinha ciência de que não vivia uma calamidade assim tão cruel, mas volta e meia, tinha vontade de anular tudo que havia escutado, para que pudesse viver de maneira mais leve.

Recebeu um cliente aflito que a atacou sem meias palavras, fazendo um bombardeamento de perguntas. Ela planejava uma consulta rápida, porém grosseiramente necessária. Não tinha tempo e nem vontade para atender causos entediantes, arrancaria o que ele tinha de pior, com objetivo de eliminar sentimentos mínimos de uma vez.

"Já fez sexo a três?"

"Seria mais fácil responder quando eu não fiz. Mas sinto que não é isso que veio procurar. O que realmente você quer saber?."

"Eu não consigo sentir nada, me ajuda? Acho que entrei num casulo muito grande..."

"A gente que constrói nossos casulos, filho. Você criou isso, certamente poderá aguentar. Está com medo de bons momentos? Não pode viver nessa proteção o tempo inteiro, relaxe que uma hora isso se rompe. O que o aflige tanto?"

"É que tenho andando muito triste, queria saber como faço pra ser feliz, você sabe o que posso tentar?"

Nessa hora Ágatha resolveu não responder rispidamente, pensou, serviu-se de um vinho barato e olhou pros cantos da sala, como se as paredes daquele lugar pudessem ajudar a compor uma resposta convincente. Como caralhos aquele ser de espírito atordoado poderia aconselhar alguém a ser feliz? Voltou seus olhos enormes para o rapaz, e prosseguiu:

"Não sei te responder, talvez se você souber o que está te envenenando, achará a receita para o antídoto... Vomite os pedaços embolorados do pão que o demônio te ofereceu, cuspa na cara de Deus, se isole, morra por uns dias. Ressuscite para encontrar novos parceiros de insanidade... A cura da tristeza deve envolver coisas assim. Veja bem, estou somente sugerindo, sabe que tudo parte de você. Nosso conceito sobre a felicidade pode ser diferente... Anyway."

"Digo, acredito que tenho a receita, mas não consigo por em prática. Não sei o ponto certo de tirar tudo do fogo e me servir, também não sei se deixo esfriar ou se me empaturro com tudo ainda muito quente. Como eu faço? Sabe, é como se eu já tivesse feito tudo, mas mesmo assim nada mudou. Ainda sinto tudo muito cru. "

"É o que tenho me perguntado todos os dias, mon chér. Quem sabe falte vinho no tempero de nossas carnes, talvez criemos anticorpos nos alimentando um do outro. Pode ser que, eventualmente, seja esse o rompimento do casulo, ou o sabor que tanto procuramos... Aceita beber comigo essa noite?"

Ele era um dos poucos clientes que não buscava respostas no álcool, recusou o convite da moça e agradeceu o papo. Ele se sentiu melhor em ver que Ágatha não era inatingível, não se fez de boazinha e cutucou a ferida onde mais doía, tanto a dele, quanto a dela. Seguiu seu caminho e deixou a moça livre para morrer um pouco.

Assim que o rapaz deixou o recinto, Ágatha pediu ajuda para Eric Clapton, que clamava à Layla que parasse de se esconder, e que também acalmasse a mente daquele pobre homem, cujo nome estava listado entre os maiores guitarristas do mundo. Como de costume, o sorriso cínico da vadia surgiu, agora tudo parecia piada. Permaneceu bebendo e dançando sozinha, fazendo o melhor que podia daquela situação, aumentou o som,
a música traduziu seu sentimento e a ajudou a enterrar a praga. Finalmente tinha externado o pouco caso que deveria ter dado às palavras que ouviu quando foi amaldiçoada. Sentiu a presença de Satanás, assumiu sua melhor forma, ofereceu um drinque aos demônios da guarda e brindou à morte do praguejador.