terça-feira, 29 de setembro de 2015

NÃO ABRO O CONSULTÓRIO PARA OS MEDROSOS QUE CLAMAM POR CAOS, MAS QUEREM MESMO É MISERICÓRDIA

Existem pessoas que vão à igrejas, eu procuro paz no caos. Me agrada algo que transborde qualquer tipo de euforia, que vença a preguiça de interagir. Os dias em que resolvo socializar sempre me rendem bons causos e risadas escandalosas. E não há nenhuma outra coisa no mundo que eu goste mais do que pessoas que me fazem rir escandalosamente e deixam de herança assuntos pra mais de meses. O consultório se abre em mesas de bares, danças ridículas, motéis baratos, casa de amigos ou até mesmo de desconhecidos. Contudo, ele só permanece aberto aos descompensados que tem coragem de se confessar e dar crédito a uma alma tão perdida quanto a deles, a minha.

Uma noite saí do inferno com a deusa Strutter e um pobre demônio sem entusiasmo. Faríamos algo prometido há alguns anos, coisas que alguns condenados insistem em pedir quando estamos juntas. Acontece que nem sempre gostamos do mesmo cara, ocorre de forma natural, a gente sente quando um homem será nosso e nós seremos dele. Com ele ainda não havia acontecido esse pensamento sincronizado, mesmo assim, pedia uma noite conosco desde que soube de nossa parceria. Não pensei que ela aceitaria prontamente, mas se mostrou até mais animada que eu - que entro em todas suas loucuras sem pensar- talvez fossem as doses fortes que já tínhamos tomado, mas me confessou que era apenas vontade mesmo. 

No caminho tudo parecia ganhar vida, menos um motorista, que sozinho observava pelos retrovisores três indivíduos no banco de trás, com tesão incontrolável e respiração forte que embaçava os vidros. Dificultávamos  a concentração do pobre coitado, que dividia atenção entre os faróis do trânsito, nossas ações e as reações de seu amigo pedinte. Mãos por entre seios, e pernas que de tão grandes se enroscavam uma nas outras, risos irônicos, lambidas que arrancavam piercings, curiosidade dos outros carros, garrafas e calças abertas, provocações de nível absurdo para os ouvidos destreinados do condutor. Sempre achei engraçado como os homens se portam quando são agraciados por duas mulheres, eles não sabem se agradecem aos deuses ou se pedem para ir direto ao inferno. Denunciam no olhar, sussurros e xingamentos o quanto é satisfatório entrar em êxtase pelas provocações da praga mais prazerosa de aguentar. Estar no meio de uma maldição assim, desperta o pior lado de todas as partes envolvidas, até mesmo daqueles que sentem medo dos demônios que os perseguem. Cabe aos amaldiçoados entrar na dança, ou fugir... Acreditem, poucos aceitam a condição e entram no salão de festas do Diabo. São raros os que permitem se envolver pelos riffs satânicos que despertam o ritmo mais gostoso de seus corpos. 

Pois bem, naquela noite chegamos os 4 na casa do motorista, que não teve nenhuma reza maldita rogada sobre ele e serviu apenas de caminho para que a insanidade tomasse conta do seu lar. Strutter estava com seus saltos mais altos, o que a deixava ainda mais desejável. Era como se assumisse uma outra forma. Seios a mostra em renda preta, provocações públicas, um sorriso demoníaco, tudo nela inspirava e respirava sexo. Estando daquele jeito poderia comandar o inferno no lugar de Satanás. Eu estava montada no colo do ser sem alma que tirava minha roupa, enquanto bebíamos e ríamos daquela situação toda. O pobre amigo sem demônios nos olhos também tentou entrar na brincadeira, dispensei. Não me agrada atender quem sugere pouco, gosto de excessos. Mesmo que seja o dono casa, não me encanta quem finge gostar da bagunça, mas prefere a paz que embrulha o estômago. Aquele tipo que sente vergonha de seus desejos, que não se dá conta do quanto se torna patético fazendo tudo sempre recheado de mesmice e normalidade. Pessoas assim não sentem o caos, não sabem aproveitar isso, nunca enlouquecem, muito menos ousam se aproximar dos loucos. No máximo eles observam e sonham fazer igual, mas falta talento, falta não prestar, e digo não prestar no melhor sentido dessa expressão. Falta não prestar para histórias ruins, bebidas fracas e paixões tediosas. O mal de alguns caras que assistem esses episódios da minha vida, é achar que as coisas acontecem de forma bagunçada, com entrada franca para tolos. Não, não é assim que funciona. Digo, quando duas mulheres escolhem dividir o mesmo cara é porque elas o querem gratuitamente, não cabe de modo nenhum outro sujeito. Um outro nunca despertará o que o escolhido acordou naqueles seres imprevisíveis, que brigam, destroem vilas e se matam, apenas pra ter a exclusividade de uma foda. 

O chofer saiu de cena desanimado e preocupado com o barulho que poderia acordar seus vizinhos reclamões, de verdade não estava me importando com nada. Aumentamos a música, que era Fade to Black, do Metallica, com a melodia envolvente e os riffs que excitavam e me mantinham de joelhos com a boca suficientemente ocupada e impossibilitada de cantarolar o refrão que tanto gosto. Queria apenas chupar aquele ser, de uma maneira que desse vida aos seus demônios, minha vontade era sugar sua alma, assim o libertaria das histórias medíocres que contava. Um sussurro, dois, olhei pra cima e sorri, ele já não controlava a respiração, não ameaçava tapas ou xingamentos, apenas respirava mais forte. Minha deusa tomava seus drinks e observava tudo atentamente, pedi por sua presença, poderíamos melhorar aquela cena evocando o pior de cada um. Não haveria salvação, Satanás estava lá e sentíamos a força que exercia em momentos daquele tipo. Strutter, ainda mais linda, serviu-se de mais bebidas e caminhou até nós, com o sorriso mais sarcástico e excitante do universo. São coisas que não resisto: Sorrisos sarcásticos, álcool e histórias boas. De alguma maneira todos esses itens estavam servidos, e obviamente aproveitei para me empanturrar de tudo que aquela noite estava ofertando. 

A Deusa veio até mim com o som alto de Sad But True, anulando a terceira parte daquele cenário, dominando tudo e enchendo o lugar com seus gemidos e gestos sexuais, sem se preocupar com os pedidos de silêncio que o dono da casa havia feito a alguns momentos antes. Me arrancou dos braços do mortal, agarrava-me pela alma e me chupava com força, invadia corpo e espírito, fazia comigo o que bem entendia. Xingava, segurava, batia, poderia até me matar, pois eu mesma já implorava por isso. Esquecemos os demais praguejando uma sobre a outra. Eu jurava ódio, ela dizia que me amava, ele só assistia e dava o veredito "Malucas!". 

Coitado, pedia permissão para voltar à cena, não soube mandar nas loucas que assistia. Tentou algumas vezes, porém, já não despertava mais nada em nós, não tinha autoridade sobre nossos corpos e passara bem longe de dominar nossas almas. Acabou se conformando em fazer parte da platéia, conseguia apenas rir de nossas perguntas "Está assustado?" - "Não, é que vocês são muito loucas mesmo" -"Por que? Vocês está com medo? Vem brincar com a gente também!" - "Não é isso, é que vocês realmente são loucas!". Não insistimos em ter novamente sua participação, nós nos transbordávamos e mostrar o quanto poderíamos nos divertir sem ele também era bastante agradável. O diabo havia receitado doses fortes de exibicionismo, o obedecemos. Seguíamos os ensinamentos do senhor das trevas, "O inferno era um lugar de muitos", não tinha como buscar paz com medrosos, aqueles que imploram por pragas , mas quando elas chegam, pedem por misericórdia.  Isso não despe a aura. Não aguenta doses fortes e caras. Não faz o consultório se manter aberto. 

domingo, 20 de setembro de 2015

ÁGATHA, A VADIA QUE COBRAVA POR ALMAS

A música era Piece Of My Heart, da Janis Joplin, que não estava mais no último volume, mas o pedido forte de “arranque outro pedaço do meu coração agora, baby” permanecia no repeat. Ágatha não estava cansada, permanecia tranquila e tentava se reorganizar para atender o próximo cliente ou simplesmente para morrer um pouco sozinha em casa. Cinzeiro cheio, copos vazios, roupas espalhadas e a conclusão da moça: “Definitivamente esse é o lugar de uma puta atormentada pelo demônio.” Respirou fundo e trocou de música, agora mexia o corpo, ao som de Alabama Shakes, a letra e o balanço gostoso de I don’t wanna fight no more, estavam alinhando seus chakras e trazendo à tona a melhor versão daquela garota. Ela acreditava que quando a música traduzia seus sentimentos, não precisava de mais nada, sentia que seu encosto a abraçava amistosamente, e dançava todas as desgraças que já havia vivido, além de rir escandalosamente de todas as maluquices que tinha realizado para conseguir um pouco de paz. Isso valia de oração e também trazia um pouco de sorte. 

Era necessário um pouco de agito, o trabalho tinha seu glamour, aos olhos dos outros, e conferia certa segurança para ela, mas a face verdadeira de Ágatha preferia dançar entre os loucos, ouvir suas histórias e reinventar-se com paixões passageiras. Algumas reais, outras existentes apenas em seu imaginário. Contudo, vivia todas da maneira mais intensa que os pecados lhe permitiam e que o diabo havia ensinado. Gostava também de oferecer pequenos goles de sua alma a quem a rodeava, seu propósito era permanecer embriagada com o espírito dos que, de alguma forma, estavam condenados a ter a presença da perturbada suburbana em seus caminhos. 


Às vezes suas noites tinham gosto de café sem açúcar, não havia par para dançar, mesmo que ofertasse seus serviços de maneira gratuita. Ela poderia reproduzir conteúdo e provocar o mais feroz dos instintos em qualquer um, ouvir causos, ou simplesmente servir de companhia para confissões em troca de alguns copos de whisky. Porém, em noites ruins, às vezes, a requisitada meretriz de Satanás não tinha história romântica pra contar ou ouvir. Alguns clientes podiam se alegrar sem ela por semanas, ela enlouquecia por ciúmes e exagerava nos porres nesse período, mas, quando anunciavam a volta, os recebia ainda mais violenta e apaixonada. Escondia as mágoas que sentiu ao ser substituída em mordidas e arranhões, tapas e puxões de cabelo. Ágatha gostava de demonstrar da maneira mais bruta possível a importância que tinham pra ela. Batia com força pra derrubar, mas não deixava cair. Exagerar era seu dom, como leu em Henry Miller certa vez, “Era uma vadia de alto a baixo, e essa era sua maior virtude”. Não vivia apenas de vadiagens, se preocupava verdadeiramente com seu rebanho. Sabia que não acreditavam na sua versão amorosa. Talvez gostassem, e preferissem, a hipérbole que ela fazia da vida de todos. 


Essa noite teria que atender um novo cliente, ele a procurou acreditando que a louca aceitaria sexo com indiferença, sem troca de sentidos, o sexo cru e simples oferecido por qualquer ser que não renda boas histórias:


- Você realmente paga por isso? Por coisas sem alma?


- Sim. Prefiro. Não quero dar, nem transparecer, muito menos receber, carinho de ninguém. Me interessa apenas meter e sair fora. Não sei lidar com interações, eu quero que sumam depois. Não me apetece dormir de conchinha com ninguém. 


Ela fitou seus olhos enormes e bem delineados no rapaz e o analisou friamente. Era um homem bonito, com uma aura sexual que fazia com que mulheres de todas as partes o notassem e o quisessem, mas para Ágatha ele transmitia outro sentimento… Pediu um cigarro para seu acompanhante e continuou o papo:


- Não trabalho com esse tipo de coisa. Mas quero te ouvir, e faço isso por uns tragos e alguns drinques, mas na bebida e na conversa eu não quero gelo. Seja insano em suas confissões. Como não deseja a troca de almas em uma foda, te oferecerei outro tipo de serviço.


Ele ficou surpreso com a negação da moça e na audácia dela insistir em falar sobre coisas quentes, quando pra ele as mornas bastavam. Mesmo assim, acendeu o cigarro da menina, pediu os drinques e passou a divagar sobre seu desinteresse:  


- Eu pago por isso, porque já tive muitos relacionamentos falidos. Larguei mulheres, elas me largaram, as troquei por noites de farra e até por noites de trabalho. Por vezes preferia dormir do que dar uma trepada, isso foi as cansando e elas me deixaram. Então desisti. Eu pago pra não ter carinho, pois não sei lidar com essas coisas gratuitamente. 


Para Ágatha ouvir aquilo era como um torção no pâncreas, claro que carinho clichê também não era com ela. Não fazia o tipo que dormia abraçada, embora adorasse receber esse tipo de convite. Mas evitava ao máximo. Dormia de conchinha por meia hora, recebia seu pagamento e voltava pra casa. Mesmo assim, não deixava de entregar seus demônios a quem solicitava sua presença: 


- Eu acho que você nunca transou direito. Me perdoe a franqueza, mas acredito que seu problema, aliás, que a cura para essa sua preguiça, seja uma louca que te chupe apenas porque gosta de chupar e não por obrigação. Falta uma mulher que te ofereça loucura e que você aceite as sandices dela. Nem que seja algo breve, pelo menos para que essa nuvem vá embora. 


Interpretando a segura pisco alcoólica, teve a certeza de que não seria ela a salvadora das noites daquele moço, mas estava disposta a ajudá-lo a ter coragem de se permitir a uma garota anormal, dessas que não gostam de receber flores, que falam o que sentem sem esperar ocasião, um tipo de Ágatha. As filhas de Apolo com Afrodite, apadrinhadas por Hades… Bacantes, frequentadoras assíduas das festas de Dionísio:


 - Sempre me preocupei em dar prazer às minhas namoradas. Lia manuais, perguntava o que gostavam, me preocupava que elas se sentissem bem, mesmo que eu não estivesse satisfeito...


A gargalhada da moça estremeceu o bar, ele olhava sem saber como reagir, esperou que a risada cessasse, acendeu outro cigarro e perguntou o motivo do escândalo, ela respondeu:


 - Eu ri, e daria risada disso a noite inteira. Você lia sobre dar prazer? Ótimo! Mas o que você sentia? O que te movia? Que tipo de praga era preciso rogar para que seu pior lado aparecesse? É sobre essas coisas que estou falando. É com isso que eu trabalho, mon chér. Troque vontades. Por favor, não seja como uma via de mão única. A não ser que queira passar o resto de seus dias pagando por pouco... Eu prefiro gastar meu dinheiro com coisas melhores, mas não vou exigir de você os meus comportamentos, nem os meus ideais. Quer uma dica? Chegue em casa e ouça Stones, de preferência a versão de Rock me baby com as guitarras do AC/DC, isso pode te ajudar. Eu preciso ir, lamento não poder te ajudar de maneira sexual, mas gostei do papo. Chame sempre que quiser, o consultório estará aberto.


A moça levantou e deu um beijo na testa do “paciente”, ajeitou seu vestido curto e saiu desfilando seu corpo diabólico nos saltos enormes que a caracterizavam por onde passava. Ele permaneceu fumando e bebendo, agradeceu a dica e ficou de chamar a agradável descompensada mais vezes. 


Ágatha chegou em casa e ligou o som com moves like a Uma Thurman, os estranhos do Urge Over Kill diziam “Girl, you’ll be a woman, soon…” e da maneira mais cínica ela voltou para suas doses e retrucou “O dia em que eu me tornar mulher, meus caros…” E sorriu, com o prazer que somente os bons papos e o álcool lhe proporcionavam. Aquela não havia sido uma noite ruim, mas o início de noites incrivelmente melhores.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SOMENTE OS LOUCOS ME TRAZEM SORTE

Esses dias estava conversando com algumas amigas, as mais loucas da espécie, e refletindo sobre nossos comportamentos. Essas coisas que vivem nos atormentando e parecem nunca ter fim.
Pois bem, falando sobre a vida, sempre acabamos conversando sobre homens. Não adianta, o assunto sempre acaba neles. Há algum tempo tenho saído com um cara só, nada frequente, nada com alma. Por conveniência, e também por culpa da minha preguiça, acabamos seguindo nessa relação, que pra mim, é feita de meia boquices.
É algo fácil demais, a mensagem chega “Quer transar?” “Quero” , dificilmente a resposta é outra pra esse tipo de pergunta. Não queria com ele, mas era o único disponível e já que não ia fazer nada mesmo, resolvi aceitar. Mas isso me cansa. Acho morno e apático, prefiro o caos. Perguntei pra uns amigos se era covardia minha não querer mais esse tipo de coisa e eles disseram que sim, a maioria de seus casos era apenas de sexo, e eles se sentiam satisfeitos. Tudo é mais fácil no universo masculino. Transar é apenas transar e pronto. Eu também pensava assim, mas perdeu a graça.
Com as mulheres da minha vida cheguei aos resultados de que custava muito caro pra ser servida como um lanche rápido, sem arrependimentos das vezes que fui um fast food, em alguns momentos é mais gostoso do que uma refeição completa, concordo. Mas os investimentos não correspondiam mais aos lucros. Estabelecimento fechado para obras, mas sempre pronto para receber clientes especiais.
A menina mais louca do Oeste, amiga de uma vista só, também estava comentando sobre seus garotos, relatou que tinha roubado a alma de poucos, aquele tesão incontrolável que eu digo ser a verdadeira mágica do mundo. Achei um ultraje! Se eu fosse um homem chupado por essa moça, e escutasse isso, daria uns bons tapas e a faria me chupar de novo, só pra que ela sentisse minha alma invadindo a sua. A garota riu e se disse preocupada, ficou de rever nossos rabiscos. Servi de inspiração, ela voltou a escrever, tomamos uns porres de choconhaque e brindamos às nossas maluquices. A entendo perfeitamente. Também consegui poucas almas, houve um tempo em que não prezava a intensidade dos sujeitos, também não me interessava roubar seus espíritos. Isso passou. Ainda bem.


Essa maluquinha apareceu na minha vida por presente de bagunça. Eu normalmente odeio todos, mas ela eu quis, e tenho na minha vida até hoje. Preciso ter todos os dias, porque já é parte de mim. Adoro seu humor, suas histórias repletas de acidez, a forma como me entende e sempre tem alguma coisa boa pra dizer. Nós nos entendemos bem, eu digo que é por que já tivemos o mesmo homem, ela insiste em dizer que sou maluca, mas pra mim é um tipo de conexão. Além de nossos demônios terem se gostado de primeira.
Sempre disse que não dançaria para desconhecidos, não trabalharia em agência, não alongaria os cabelos e não pegaria ex namorado de amiga. Feri todas as promessas, e não me arrependo. Amigas eu perdi algumas, mas ganhei outras, por sinal muito melhores. Ampliei meu quadro de deusas, elas me proporcionaram as melhores coisas da vida, as piores ressacas e os melhores homens. Duas eu consegui numa noite no inferno, e por não ter amnésia alcoólica consegui reencontrá-las. Agradeço sempre por isso. A deusa Strutter sempre apoiou minhas ações, por vezes a troquei por uma bagunça com gente nova, e ela não se importou, queria que eu estivesse inteira e pronta para viver melhor as novas festas que a vida estava me oferecendo.
Nem sempre foi alegria assim, eu perdi gente também. Herdei uma garota que quer me ver morta. Acho um tremendo exagero, mas entendo sua mágoa. Ela namorava um cara, e vivia falando dele, o vi uma vez, numa época cheia de novidades na minha vida, achei legal, mas nada em especial. Eles terminaram, eu algum tempo depois o reencontrei e o li, quis na minha vida, avisei pra ela, eles voltaram e eu entrei na história. Pessoas novas trazem sorte, a sorte vem das mudanças.
Não costumava ir pra lugares em que não conhecia ninguém, mas tive um convite e resolvi aceitar. O papo era bom, achei que valeria a pena. Fui. No meio do caminho pensei em voltar pra casa, minha preguiça de socializar quase sempre me domina, mas segui até o final. Chegando lá, a casa estava cheia de amigos de longa data, e eu, pra variar um pouco, era a estranha e péssima em fazer amizades. Mas deu tudo certo, apesar do susto e do receio. Acho que ali me encantei por histórias simples, sem querer nada em troca, apenas pelo gosto de compartilhar conceitos que talvez para outros não tivessem relevância. De alguma maneira me senti à vontade para ouvir, e também falar, sobre coisas que agradavam. O anfitrião me ofereceu seus causos, seus amigos e sua família. Absorvi sua alma, e também entreguei a minha, assim ficamos ligados. Confesso que pensei na mágoa que poderia causar na amiga, mas não me deixei levar, seria do jeito que tinha de ser. Não se tornou uma amizade meramente sexual, era melhor que isso, me sentia bem ao seu lado e de todas as pessoas que ele aproximou de mim. Era algo que não buscava vantagens, era simplesmente gostar de maneira gratuita. 
Às vezes penso na menina que quer me ver morta, mas não trocaria um segundo daquele dia, ou dos outros que tive, por sua compreensão. Se soubesse como seria o final, teria aproveitado muito mais, teria aceitado tudo facilmente. Acredito que nossa amizade não tenha acabado pela aproximação que tive com seu exclusivo ex-garoto, acabou simplesmente pela troca de interesses. Ela também precisava de sorte, e só gente nova tráz isso.
Entre um gole e outro permaneço dividindo esses causos com o povo que ganhei, perdi o medo de quem oferece novidade, e mantenho comigo apenas aqueles que trazem algum tipo de sorte. Pragas são sempre rogadas, melhor fortalecer meu santo com aqueles que me querem bem.

VIDA E CAUSOS DE UMA BARONESA NA BAHIA

Voltei de Arraial ontem e posso afirmar que não desejo mais outra vida. Tudo lá é lindo, o dia passa devagar, as pessoas são agradáveis e meu ego é inflado em cada passeio. Encontrei gente muito boa, a imagem vendida dos baianos aqui em São Paulo é torta. Adorei o povo, e eu não gosto de ninguém, pra ser bem sincera.
Lá ganhei o apelido de Baronesa, acho que todas as moças do local, turistas ou não, são chamadas assim, mas me identifiquei, achei graça. Já fui chamada de muita coisa, porém foi a primeira vez que tive um apelido nobre. Já fui sol, já fui baleia, já fui demônio, sou a deusa vampira Akasha, sou bicha e travesti, tufão nos tempos de criança, leãozinho por parte de mãe e alguns amigos, Thalita Cristina por parte de padrinho e mais um monte de nomes que insistem em me dar. Baronesa era um apelido justo, combinava com a minha estadia na cidade: Praia de manhã, passeios à tarde e à noite … Vivia sem ter hora pra voltar pra realidade, distribuía sorrisos, não pedia troco de nada e me tornava melhor. Estava reciclada.
As praias tem uma beleza incrível, as cabanas, que nós chamamos de quiosques, estavam repletas de casais normais compostos por homens muito mais velhos que suas mulheres. Isso não me incomoda. Casais em geral me irritam, se eu não faço parte deles. Egoísmo puro, mas enfim… Ouvi a conversa de um par no clube Quinta da Praia, onde aparentemente o rapaz estava curtindo o início de tarde com a moça, mas a infeliz insistia em teclar com outro. Ele estava puto da vida, e com razão, reclamou para a bela “Eu não levanto às 3, pego a balsa às 5, entro na faculdade às 6, e te trago aqui, pra você babar no ovo de outro.” Genial! Indignação aceita e perfeitamente explicável! Pedi outra cerveja e ri com a minha mãe, quase abracei o cara. A mulher não estava fazendo nada que um homem não faria, estar com um e pensar em outro, mas não executou direito. Talvez quisesse fazer birra, entretanto, não foi uma atitude elegante. Em seu lugar eu aproveitaria tudo, ele tinha conseguido bônus, porém, como estava lá de filha, apenas observei e jurei nunca fazer o mesmo.
Os grupos de amigos conversando pareciam com os meus, falavam de seus casos, seus cigarros, seus porres e viagens. Eu estava com saudades de reunir meus putos, mas também precisava de um tempo longe deles, contudo, cada ocasião vista na cidade, me lembrava um de meus demônios e acabei sonhando com o dia de todos nós integrando a trupe dos bacanas de Arraial d’ Ajuda. O lugar ficaria ainda mais mágico.
A Baronesa encantou o povoado. O Palhaço Calcinha e a cachorra Maluca elogiaram a lua de mel de sua mãe. Tudo na Mucugê era um sonho, o cheiro de pitanga no Beco das Cores não parecia real e a Broadway com a 5th Avenue eram de um charme envolvente. Ali era o fantástico mundo de Thali.
A viagem aconteceu da maneira que as melhores coisas da minha vida acontecem, na incerteza, na dúvida. A primeira viagem de avião me lembrou a primeira vez que pisei no palco, a primeira vez que entrei na casa de amigos. O medo imenso de acontecer algo errado resulta em sensações indescritíveis… Ansiedade besta, no final tudo ocorre de maneira deliciosa.
Até a volta, Arraial. A Baronesa será eternamente grata pelos melhores cinco dias que teve em 2015.