quinta-feira, 30 de julho de 2015

ENTRE UM COPO E OUTRO, UM PEDAÇO E OUTRO, EU BATO UM PAPO COM O DIABO E ENCENO NOVOS DRAMAS

- Como está agora?
-Eu estou no looping de coragem e covardia, mas os momentos corajosos têm vencido a maior parte do tempo. Acho que dá para mudar tudo e fazer funcionar de acordo com o plano.
- Se desesperou?
-Várias vezes! Cara, eu sempre ouço a voz da minha mãe dizendo que eu sou uma velha e que levo tudo em ponta de faca, ela não está errada, eu levo mesmo. Quando me compara a uma velha chata eu digo que fui criada por duas e então adquiri os hábitos, às vezes ela ri, outras me deixa falando sozinha.
-Eu estou no time da sua mãe, querida. – Os olhos enigmáticos do demônio correram por todo lugar, ele sorriu sarcasticamente como de costume, passou a mão na minha testa num ato atípico de carinho, respirou fundo e continuou.– Você trava muitas batalhas desnecessárias, para com isso! Enfim, já decidiu o que vai fazer?
De verdade, eu tinha muitos planos na cabeça: Uma oração para ser demitida e pegar uma grana, eliminar matérias na faculdade, aprender a dirigir, trabalhar menos, viajar, curtir mais as minhas duas velhinhas e meu gato, tomar uns drinks, dar risada, conversar com gente nova, rever e manter por perto meus amores antigos… A lista do que fazer era gigantesca, só me faltava iniciativa, porém sempre havia algo para me fazer pisar no freio: A conta negativa no banco, as lembranças, a insegurança emocional cada vez maior, o orgulho, a preguiça…
- Não sei ainda, vou começar tirando umas férias. E depois, com jeito, irei acertando tudo.
Novamente Satanás demonstrou afeto, me deu um beijo na testa, aquele beijo que não significava “eu cuido de você” e sim “sua tola. ” De certa forma era uma maneira dele dizer que estaria por perto observando meus passos e pronto para exibir slides de minhas falhas assim que eu me sentisse perdida novamente. Dessa vez não dançamos, nem ouvimos música, apenas conversamos.
Eu gostava de falar com ele, sentia o demônio como um álter ego fortíssimo, gostava da força que sua presença causava, talvez porque todos o evitassem e o temessem, mas de certa forma não deixavam de admirá-lo ou citar seu nome. O chamava o tempo inteiro, na felicidade, tristeza ou raiva. O demônio morava no caos, o caos me salvava, estávamos ligados e não havia mais como disfarçar isso.
 - E sobre o amor? Você acredita nessas coisas?
- Hmmm, acredito sim.
-Sério?
- Claro! Amor e reciprocidade são coisas magnificas, se fossem ruins, aconteceriam comigo. Certamente.
Andamos até a sacada, que tinha uma janela ampla da qual podíamos ver o mundo todo, do outro lado morava Deus, que além de vizinho, era também um grande amigo do Diabo, porém, como andava sempre ocupado - uma das coisas ruins de ser onipresente - , não tinha muito tempo para papear baboseiras com seu amigo mal visto.
- Você diz que apenas coisas ruins acontecem com você, menina… Sabe bem que isso não é verdade. Se o Todo Poderoso Alfa e Beta criador da porra toda estivesse aqui, também concordaria que esse drama é inválido. Te acontecem coisas boas sempre, mas essa queda por desgraça faz com que elas sejam anuladas na sua mente. Para com isso, por favor, já disse que é um porre dos piores te aturar assim.
Maldito Demônio! Me lia melhor que todos, aparecia quando não havia ninguém e ainda me jogava no chão numa queda sem escalas. Assim como também podia fazer com que eu me sentisse a bailarina mais charmosa do Oeste em questão de segundos.
Os dramas me perseguem, não passo um dia sem dramatizar meus atos, por mais simples que sejam. Um toque à lá Maria do Bairro, o sofrimento antes de levar o tiro, o pânico de antemão, sempre caracterizam minhas histórias. É uma forma de dar mais aventura a minha rotina monótona. É o que faço para colorir com graça os meus causos. Enfim, com ele não funcionava. Eu forço a barra, confesso. 
- O senhor tem razão, talvez seja isso mesmo. Dou muita importância a tudo e dramatizo as coisas em escala astronômica…Opa! Acabei de fazer isso de novo. Ainda não se acostumou?
- Às vezes me irrita. Mas não posso te abandonar, tenho que trabalhar e de alguma maneira, estou envolvido em suas tragédias imaginárias.
-E me diz uma coisa, não tem nada para comer aqui?
- Gorda. Vou ver o que arrumo, bebida nós temos. Ainda há muito o que conversar.
Pois é, tínhamos a vida inteira para conversar. Eu tinha parte com Satã, nossos papos estavam prescritos no contrato de pacto, a sorte só viria no caos e no abandono das inseguranças. Seguíamos assim, eu precisava de tudo o que ele oferecia e tinha resolvido deixar de fugir.
- Jack?
- Jack.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

SATANÁS REAPARECE, A LUA ESTÁ EM LEÃO E AS INCERTEZAS TIVERAM FIM

Não via a hora de chegar em casa e apagar, queria me desconectar de tudo e de todos, nunca conseguia, sempre havia uma conversa da qual gostava de participar, ou alguma história nova que adoraria ouvir. Por tempos não falava com o Diabo, nem com Deus, estava afastada de todos os demônios, minha situação era complicada. Bagunçada. Acho que estragada é a palavra certa. Completamente confusa com o possível rumo da minha vida, tomava porres infinitos de uma das bandas que mais gosto em busca de algum alívio, quase sempre encontrava respostas dançando no ritmo maléfico e sexual dos Stones, porém, inacreditavelmente, eles não estavam me curando. “Que caralhos está acontecendo?!”, aumentei o volume, nada que Gimme Shelter em sua versão live com os agudos incríveis da Lisa Fischer não resolva, a canção sempre me ajudou e não falharia se tocada repetidamente num volume infernal.  
Pois bem, numa dessas noites em que tinha resolvido morrer por um tempo, enquanto incomodava os vizinhos com a música alta e repetida descaradamente, ele reapareceu com seu ar sarcástico de sempre, convicto de sua beleza e ciente de que eu morria de vontade de contar tudo que estava acontecendo, mas também que era orgulhosa demais para pedir um dedinho de prosa com o Satã.
- Olá! Sentiu minha falta, né? Você não admite que eu te faço bem e que não vive sem mim.
- Acreditei que tivesse desistido de vez de mim, então resolvi não procurar. Talvez fosse melhor desse jeito. Estava por aí me observando?
- É uma visita rápida, achei que chegaria enquanto estivesse dormindo e invadiria seus sonhos como de costume, aliás, sua cabeça está cheia de coisas… Nem em seus sonhos eu tenho conseguido entrar.
- Visita rápida? Não! Por favor, eu estou confusa, preciso falar…. Preciso te ouvir…
- Ainda está ouvindo Stones?
Pensei em dizer que não parei pra ouvir outra coisa, mas ele sabia de tudo,  só consegui olhar em seus olhos e respirar fundo. Cantarolando, continuei nosso papo:
- If I don’t get some shelter… Oh, I’m gonna fade away. Sim, ainda estou ouvindo. Não te dá vontade de ser um deles às vezes?
- Sou muito mais que os Stones, eles que são cópias minhas. Bom enfim, não quero falar sobre isso. Vejo que ainda está atrás de raspas e restos e historinhas medíocres… Em anos de convivência, não aprendeu nada comigo?
 - Eu já desisti de tentar aprender algo com você. Quanto às raspas, restos e as migalhas dormidas do pão que você amassou, acho que elas ainda me interessarão por uns tempos. Sabe como é, uma reeducação alimentar é difícil no começo, com calma tudo se acerta.
 Ele riu, como em nossa primeira conversa, sua risada encheu o quarto, andou até o som, aumentou o volume “I tell you, love sister…♫” dançou como se comemorasse algo e acendeu um cigarro.  Voltou seus olhos para mim e continuou:
- Por quê? Por que você insiste nisso? A calmaria é uma droga, eu estou presente no caos, nos momentos mais insanos, na euforia em seu sentido mais puro. E a verdade é que você procura isso, algo que transborde, mas esse medo filho da puta não te deixa seguir. Eu vou perguntar mais uma vez: Por quê?
Verdade que me afastar do demônio trouxe tranquilidade, mas a paz incomodava de um jeito absurdo. Eu não sabia responder o motivo de rondar pessoas e hábitos comuns, casos comuns e lugares comuns. Apenas seguia assim, ficava triste, exagerava nas doses“Stoniânicas” e continuava a viver. Não gostava de nada e de ninguém, não sentia nada que não fosse automático e isso estava me adoecendo.
- Eu não sei o que está havendo! Eu tento fugir de tudo isso que você me mostra e me faz sentir, quero ir para um outro caminho, mas minha vida parece ter sido talhada em uma via de mão única, por mais que eu dê voltas sempre acabo aqui, delirando em papos com o Satanás, achando que milagrosamente tudo irá se resolver… Sem ao menos ter certeza do que eu quero que se resolva.
Estava presa numa rocha em um lugar de difícil acesso. Assim como a música, não conseguia uma satisfação, e por mais que eu tentasse e tentasse, acabava me decepcionando. Meu álter ego funcionava, eu precisava de manutenção. Os momentos de prazer eram rápidos e não tão intensos, poucas risadas tiravam o fôlego, apenas o choro era verdadeiro. Me faltava um milhão de coisas.
O Coisa Ruim, ironicamente tinha seu lado bom comigo algumas vezes, acho que é uma espécie de bruxaria do destino. Tudo estava dando errado, não nos falávamos há tempos, a lua estava em Câncer, era meu inferno astral. Nada dava certo e o tédio corria mais rápido que o sangue em minhas veias. Não tinha mais como aumentar o som, após falar e respirar fundo entrei no ritmo da música de novo e pedi apenas para que ele dançasse comigo. Era isso que me traria à tona de novo, uma dança com o Diabo, nos entendíamos, era a resposta que eu procurava.
 - Você sabe que eu estou sempre presente em todos os seus atos e que só é feliz transbordada em caos… Ainda irá fugir?
- Dança comigo. Não quero ouvir mais nada. Não fale mais nada.
- Hoje entramos em Leão, não acha coincidência que eu tenha aparecido? Precisa chegar mais perto de mim, é só um beijo de distância.  – Eu ri, pois, o demônio, mencionava um trecho da música favorita dos meus devaneios que não parou de tocar um só instante.
O olhei fundo, nossa distância foi anulada com um beijo tão intenso quanto a todos os outros que já havíamos dado, Lisa começou a cantar novamente e sua voz aumentava de acordo com nossa respiração, minha alma foi guiada pelo Senhor das Trevas, era isso que ele queria e sempre conseguia de mim. Leoninos começavam a nascer no mundo todo, e nós enterrávamos minhas incertezas juntamente com meu inferno astral, a tempestade que ameaçava minha vida veio com a fúria de um dilúvio, jurava que não queria me aproximar do caos novamente, mas foi ele quem me salvou.