quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A RETROSPECTIVA DA MOÇA

Acredito que nesses 12 meses ela tenha se descoberto de maneira que jamais ousara imaginar. Era mais sensível e mais mulher, chorava tanto aos desamores quanto às paixões. Nesse ano, a moça descobriu que não merecia passar por cólicas fortes, sangramentos, rituais de beleza, dívidas, lingeries caras, noites ruins e conversas fiadas, para acabar em fodas de emergência com quem não bebia de sua alma. Ela agora suplicava por uma transa com a vida, ansiava por uma força que a colocasse de quatro, afundasse suas costas e a penetrasse com o membro pulsando junto ao seu coração, gozando gostoso como suas gargalhadas e que a sujasse inteira: rosto, boca, seios e coxas. Alma. Desejava ser invadida, queria suas roupas e máscaras jogadas no chão. Algo que a tivesse por completo, sem medos, sem neuras, sem prisões.

Ela demorou meses para aceitar que oferecia euforia aos pequenos corações, demorou para compreender que amar era deixar livre, e ser livre também. Reconheceu seu reflexo nua no espelho, fez poses e decidiu, somente esse ano, que poucos mereciam tê-la assim. Orgasmos eram presentes que se dava sem data especial. De Janeiro a Dezembro, a moça completamente maluca, que gostava de chupar e ser penetrada com olhares, descobriu que não se deitaria com respirações fracas, não compartilharia suas fantasias de orgias gregas com meros sonhadores de aventuras medíocres.
Nas doses que queimavam sua garganta e deixavam seus toques ora leves, ora puramente sexuais, pedia apenas um cérebro que pudesse lamber. Era isso, a menina despertou sua originalidade, escrevia suas histórias, queria um prato de ideias novas, uma torta recheada com cérebros mais insanos que o seu. 


E ela demorou esse ano inteiro pra compreender que de nada valem as pragas, que chupadas só valem se forem intensas e recíprocas, que só fica por perto quem quer e que a ansiedade é a pior maneira de morrer.
Então matou sua garrafa de Whisky, pediu por um novo ano de descobertas, anseios e fodas recheadas de tesão incontrolável com a vida.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

DELÍRIOS E DESEJOS PROVOCADOS PELA INSÔNIA

Comecei um devaneio de novo, são noites e noites sem dormir e já não consigo pensar em nada concreto. Lembro que estava imaginando, criando ou me relembrando de um corpo feminino completamente nu. Seios enormes e fartos, mas não conseguia me excitar, talvez ela fosse gorda demais, precisaria de uma foto de seu umbigo... Umbigos. Tara por umbigos. Tara por umbigos? É, é algo exótico. Não sei... Estou sob efeito de alucinógenos.

Mais uma noite sem pegar no sono, meus olhos pesam como sacos de meia tonelada, a mão do ceifador está em meu ombro esquerdo neste momento. Eu sinto o hálito quente do carrasco, ou da bruxa gorda de peitos gigantes e sem umbigo. A fumaça do cigarro embaça a visão, minha garganta aperta e quase me mata implorando por um gole de Whisky. Aliás, ela suplica por litros de Whisky. Queimação alcoólica ressuscita, aumenta a barra de ânimo nesse jogo em que estou preso.

Sinto o pulsar do meu coração diretamente em meu cérebro. Cada veia salta forte, cada batida é como uma agulha ferindo minha mente. É uma dor que vem em escala, ela é fraca e vai se graduando até ficar insuportavelmente aguda, sabe? É como se aquela enfermeira velha, que destrói qualquer fantasia com essa profissão lhe aplicasse uma Benzetacil. Não gosto dessa dor, não gosto da enfermeira, não gosto das pessoas que me rodeiam e das lembranças que me trazem. Elas não despertam nada, apenas asco. É preciso desejar quem está perto de você, querer com força, querer se despir junto, escancarar os maiores medos e desejos.

Só gosto de gente que me dê vontade de arrancar a roupa, tamanha a excitação que a presença possa provocar, sou um homem tido como estranho pelos outros, meus gostos são demasiadamente complexos. Me enche de tesão o papo, a inteligência e a segurança. Esse tipo de atitude que pede uns tapas na cara e umas mordidas. Você não consegue explicar o motivo de querer fazer isso. Mas faz. Faz só para sentir o arrepio, para sorrir de satisfação e constatar “era isso mesmo que eu queria”. Esse tipo de gente que cura a minha insônia. Os remédios ainda alteram o meu raciocínio, que já não é tão lógico normalmente. Nem posso afirmar que sou de exatas ou de humanas, posso ser frio e calculista ao mesmo tempo que consigo declarar odes ao amor e filosofar sobre a origem da humanidade. 

Minha cabeça agora é apertada por um grifo gigantesco e a imagem da senhora mal-amada não sai de meus pensamentos. Como será o umbigo dela? Talvez ela também precise de uns copos de Whisky, acho que completamente bêbada se tornaria minimamente interessante e não perturbaria minhas fantasias, e sim as completaria descendo amarga e docemente pela minha laringe. Posso imaginar seus gemidos me ensurdecendo. Se minha cabeça não doesse tanto, seria capaz de sentir sua respiração ficando cada vez mais forte, a vejo sincronizando-se aos meus movimentos, eu poderia ouvir o som de cada uma de suas articulações, posso pensar que ela teria um ataque de espasmos quando gozasse, acho que ela necessita disso. Quem sabe se ela abandonasse a antipatia e a cara de desgraça, pudesse assumir uma nova personalidade louca e ansiosa por três horas insanas de sexo em algum motel barato? O álcool tem essa mágica. Consigo imaginá-la em meias 7/8, saltos altos e finos, com o corpo envolto numa lingerie cara. Renda preta sempre configura uma boa imagem. Aposto que é isso que ela quer, por isso me tortura com essa maldita injeção de desânimo. Ela quer me sacanear, quer ver até onde aguento. Eu suporto torturas, o que me mata é o tédio.

Seguro a mão do ceifador como quem pega uma caneta para escrever, minha gana por um fim é infinita.  A dor é suportável, a falta de sono que me corrói. Só queria dormir. Queria morrer por alguns instantes e abandonar tudo: A enfermeira dançarina peituda. As noites recheadas de álcool e sexo, as tragadas longas, tudo isso pouco importa. Eu preciso dormir. Com os braços abertos, aceito a morte nossa de cada dia, que nos cumprimenta sutilmente a todo instante, nos saúda cordialmente num: boa tarde, e em mais de quinhentos: boa noite. Mas está claro que minha alma não será levada... mais uma vez. Não será tão fácil assim apagar minha aura. Assim como o nojo humano insiste em me perseguir, o desejo pela morte anda de mãos dadas com o amor pela vida.


A cada engolida seca – e desesperadora-  que me dá a sensação de, de... puta que o pariu! Me perdi no raciocínio... não se perca em minhas palavras, não se contagie com o que eu sinto, são coisas minhas que jamais lhe cairão bem. Não servem nem em mim... quem sabe eu queira dizer alguma coisa com toda essa reclamação? Talvez lendo de trás para frente isso tudo faça um sentido, ou talvez nunca faça e seja mais parecido com um bolo fecal do que com reflexão. Por hora fecharei meus olhos e torcer para que isso acabe, torcer apenas para que chegue ao fim.


Mais um porre que tomei Insanamente com Erik Lucas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

AS PERGUNTAS QUE MAIS ASSOMBRAVAM SEUS SONHOS, E O FAZIAM SUAR FRIO, COMO SE O PRÓPRIO DEMÔNIO VIESSE LHE COBRAR AS DÍVIDAS DAS VIDAS QUE CESSARA, ERAM: QUEM VAI ASSUMIR A MAIOR DISTRIBUIÇÃO DE DROGAS JÁ VISTA? QUEM IREMOS CULPAR? O QUE ACONTECERÁ QUANDO TODOS DESCOBRIREM A VERDADE?

E naquele dia a notícia foi dada: O principal suspeito estava morto, uma vértebra quebrada em um escorregão no banheiro. Morte besta. Sete anos e meio de investigação jogados fora! O suposto maior traficante da Costa Leste estava morto. Teria sua morte sido encomendada? E quem teria feito isso? Um concorrente? Talvez, pouco provável... sua vida criminosa não passava de história inventada, esse homem nunca foi envolvido com nada ilícito. Preocupava-se apenas com as flores e os vasos que vendia em sua loja. Por azar, tornou-se um suspeito sem crime. Era um sujeito comum, que teve nessa desgraça, o maior momento de sua história, até então, totalmente insignificante.

O acontecido foi arquitetado pelo Investigador Johnson, o verdadeiro criminoso, a pessoa que realmente comandava a Costa Leste... e mais 3 países. Sua distribuição era simples, porém, super eficaz. Ninguém suspeitava de seus métodos para enriquecer e manipular atos. Johnson era um ser sem escrúpulos, não media esforços para atingir seus objetivos. Construiu um império grandioso por anos. Vidas foram tiradas para manter sigilo e almas compradas para garantir fidelidade, e agora, uma morte ridícula pode acabar com todo seu disfarce. O Sr. Armander está morto, e o sabonete é o assassino, ou talvez um pequeno descuido... nunca saberemos.

O pobre vendedor de flores perdeu a vida em uma das artimanhas do Investigador, que há muito tempo se preocupava com quem poderia herdar seu poderio gigantesco fruto de inúmeros e ardilosos crimes. Havia diversas mortes impressas nas mãos. Seu jogo de interesses parecia uma partida interminável de War, cada participante daquela trama possuía um objetivo obscuro, ninguém se fazia de poucos amigos, todos estavam sedentos por poder e criavam suas próprias regras. Obedeciam Johnson enquanto lhes era favorável, e ele sabia que estava num ninho de perigosas najas, todas obscenamente venenosas. Confiar não era um verbo conjugado naquele meio. Ao mesmo tempo em que era tido como rei, também poderia ser facilmente vendido com um reles escravo. As perguntas que mais assombravam seus sonhos, e o faziam suar frio, como se o próprio demônio viesse lhe cobrar as dívidas das vidas que cessara, eram: Quem vai assumir a maior distribuição de drogas já vista? Quem iremos culpar? O que acontecerá quando todos descobrirem a verdade?

O medo, aliás, a paranoia e a mania de perseguição do Investigador tinham nascido em um tempo distante. Na época em que começou seus pequenos furtos e suas fugas para se drogar. Eram noites recheadas alucinações, que anulavam uma família falida. Ele era na verdade um jovem com graves problemas mentais. Apresentava níveis de psicopatia. Desapercebidos por seus pais, que sempre foram ausentes de sua história, para eles pouco importava a saúde mental do rapaz. Havia comida na mesa e era isso que bastava.

Tendo em mãos tantas mortes e um Império construído na base dos crimes mais sórdidos e cruéis de que a humanidade é capaz, Johnson começou a lembrar-se do dia em que ele fugia de um policial.  Jovem, e aparentemente saudável, deveria ser um atleta quando estudava, mas preferia concentrar-se em seus planos de enriquecimento para abandonar a miséria que o cercava. Aproximava-se das pessoas por interesse, ficava enquanto tinha vantagens. E somente enquanto houvesse credibilidade e confiança. Assim ficava seguro para conseguir atingir suas metas. Para isso forçava sorrisos, não media esforços para manter uma postura cordial, misturava-se aos bons, recrutava gente da mesma laia, chantageava, subornava, comia, matava, salvava e escravizava. Dedicava suas horas de solidão para que montar o roteiro de seus atos, antes apenas vividos em seu imaginário, mas ali naquele devaneio com sua juventude, tinha acabado de se dar conta de até onde seus desejos haviam o levado. Ele sabia que não iria conseguir escapar, ainda com a lembrança do que viveu naquela noite, recordou-se que em seus bolsos tinha o suficiente para ficar uma noite na cadeia, um baseado e um isqueiro, se entregar ou ser capturado era sinônimo de fracasso, sentia que isso personificaria sua impotência, ao ser preso minimizaria toda a grandiosidade das torturas que cometeu para chegar ao posto que ocupava. Agora seus bolsos eram de grifes famosas, além de medalhas e respeito, carregavam também muitos nomes, muitos conchavos e muito medo. Ele não construiu um Império para os outros, a fortaleza do crime pertencia somente a ele, por isso se tornou o investigador de suas próprias atrocidades. Nada, nem ninguém, poderia acabar com seu prestígio e sua imagem de autoridade máxima na polícia: O exemplo contra a indústria das drogas. O homem mais respeitado da instituição. O dono da Costa Leste. 

O Investigador Johnsson, como gosta de ser chamado, é conhecido por outro nome em seu verdadeiro "círculo". Ele é o Vulture. Cuida de suas próprias vítimas, gosta de ver seus "clientes" morrendo ao usar seus produtos. Há um boato que se espalha de que ele não tem coração, é incapacitado de demonstrar afeto por alguém. Fez questão de viciar seu filho, seu único filho, só para testar a eficácia de sua mercadoria. Engrandecer era palavra de ordem. Familiares são completamente descartáveis. A família que tem é de faixada, assim como toda a história de sua vida. Entrar para a polícia era parte de seus planos. Ele tornou-se o chefe de investigação de seus próprios crimes. Trabalha melhor do que toda a equipe dos serviços especiais Americano, manipulando pistas e suspeitos. Sempre que os casos avançam rápido demais, ele planeja e executa algo pior, assim consegue afastar qualquer possibilidade de conclusão. 

Certa vez realizaria a entrega de drogas de trem numa cidade distante, cinco policiais acompanhavam 60Kg de cocaína em sacos de café. Tudo corria bem, até que seus parceiros suspeitaram de algo e resolveram conferir a mercadoria que estavam levando. Johnson não poderia deixar que descobrissem a fonte de sua riqueza, ele era o mandante, o fornecedor e o cobrador de toda aquela farinha. Num pensamento rápido, armou uma maneira de eliminar os colegas de profissão e seguir com sua posição de chefe do tráfico. Ele cobraria pesadamente quem ousasse anular sua fonte de poder. Avançou mais casas no tabuleiro, dopou o maquinista, desviou o caminho, o trem descarrilou, os cinco morreram juntamente com os outros passageiros e a droga sumiu. Mortes acidentais acontecem a todo instante. O recado estava explícito: Ninguém atrapalha os planos de Johnson, nem mesmo seus companheiros de polícia.

Todos esses sacrifícios seriam em vão se não tivesse a quem culpar. Era preciso concluir o caso. A distribuição continuaria, mas quem assumiria seus negócios? Sua carreira na polícia também estava em risco pois, se descobrirem que o Sr. Armander nunca fora um traficante, e que todos esses anos de investigação serviram para nada menos que perda de tempo para uma equipe, e ganho de tempo para o dono do maior Império de drogas da região, não acreditariam mais nele. E sua vida policial teria um fim desastroso:

 - O que faremos? - Perguntou a Conrad, seu braço direito.

 - Acho melhor pararmos, já temos muito dinheiro, podemos simplesmente fugir e desaparecer, nunca seremos pegos!

 - Você quer abandonar um império? Abandonar tudo, largar nas mãos de amadores uma distribuição feita com tamanha perfeição durante anos? Um esquema milionário e perfeito? É ISSO QUE VOCÊ QUER? - Gritou Vulture.

- Não foi o que eu quis dizer Sr., eu estou dizendo que, se formos pegos, e apenas se, tudo será em vão realmente. Se fugirmos ainda teremos os lucros, podemos tirar proveito de tudo que fizemos.

- Você está certo, desculpe. – Disse Vulture coçando a cabeça em gestos de pura preocupação.

Conrad sorriu, ele nunca tinha sido ouvido. Sempre foi um excelente assassino, cumpria com seus objetivos com maestria, cuidava sozinho de metade dos distribuidores. Era ótimo pai, ótimo filho, sempre ajudando sua família, mas caiu, como todas as suas vítimas, morto e descartável. Uma bala no meio dos olhos, não deu tempo nem de piscar. Esse era o jeito Vulture de solucionar possíveis problemas. Conrad sabia demais, e apesar de ser o braço direito do chefe, não podia, e nem tinha gabarito para assumir todo o Império sozinho.

Agora restava apenas desespero para o Investigador Johnson, ou Vulture, suas duas personalidades estavam perturbadas. A loucura comia seu cérebro, como os cupins vão se alimentando de madeira. Fugindo, correndo, suando, desesperado e sem saber o que fazer. Chegou em casa, trancou-se no banheiro e novamente começou a delirar com a perseguição que sofrera quando jovem. Estava num beco sem saída encostado na parede, sua visão era do mesmo policial que o perseguia nos tempos de seus crimes amadores.
Podia ouvir novamente suas palavras:

- Nem ao menos sacarei a arma, não quero assustá-lo ainda mais. Acho que não o levarei preso, seus olhos estão vermelhos e cheios de lágrimas. Acalme-se rapaz, só quero conversar!

Mesmo anacronicamente, Johnson começou a gritar, como se de fato estivesse revivendo aquele momento:

 - AFASTE-SE DE MIM! EU NÃO QUERO SER PRESO!

 Ainda sentia-se ouvindo a voz do oficial:

- Fique calmo, eu só quero... - No ápice de sua fúria, começou a chorar e soluçar. Balançava o corpo e quebrava objetos. Lembrou-se de como conseguiu seu nome: Quando novo, pegou um cano de ferro que estava no chão e bateu na cabeça do policial, cinco vezes. Chorando e soluçando, via suas mãos sujas de sangue. Reviu o momento em que retirou o distintivo do cadáver. Estava escrito "Charles Johnson", seu novo nome. Levou o corpo para o deserto e deixou de presente para os abutres. Lembrava-se de como adorou vê-los comendo os olhos de sua vítima. Daí então seu apelido, Vulture. Pegou roupas, documentos e a arma, foi atrás de um amigo que falsificava documentos e desde então, manteve esse personagem para quando precisasse, e precisou.

Quando já tinha uma distribuição massiva e a polícia estava atrapalhando, foi para a delegacia e se apresentou como especialista em entorpecentes, um currículo invejável de investigações e apreensões. Investigador Charles Johnson, intimamente chamado de CJ e instantaneamente amado por todos.Um disfarce perfeito e bem elaborado, mantendo seus principais inimigos o mais próximo possível, orquestrando as investigações em seu benefício.

De volta a realidade que o atormentava, passou a se perguntar “Seria o certo mesmo deixar tudo para trás? ” Fugir para um país da América latina, onde nunca o encontrariam era uma boa opção. A quantidade de dinheiro que tem acumulado seria suficiente para 5 gerações viverem sem trabalhar. Mas ele precisava de um final, seu império tem que acabar de forma épica e dramática. Ele quer um fim, não um substituto.

Desenhou seu planejamento, todo aquele Império estaria pronto para um Grand Finale. Começa com a polícia, convoca uma reunião com todos os envolvidos, uma tocaia enorme e bem arquitetada para acabar de vez com essa distribuição. No mesmo dia, uma reunião com seus distribuidores, marcando a última entrega. É o fim de seus atos maléficos, mas ninguém contava com sua mente insana, imaginavam que anunciaria o substituto, o novo padrinho, um novo homem a quem deveriam respeitar.

O plano era macabro. Ele queria acabar com suas próprias mãos com todos os seus companheiros de crime, queria estar na sua emboscada, comandando a equipe de policiais que acabariam com o império. Queria terminar como um herói e assim fez. Invadiu o galpão onde acontecia a reunião, e deu a ordem:

- ATIREM!!! MATEM ESSES ASSASSINOS!

Era como se todos os policiais realizassem seus maiores sonhos de anos e anos de investigações. Matar aqueles que tanto eles perseguiram, durante tanto tempo, os maiores traficantes da história estavam sob a mira de suas armas, e assim fizeram, obedeceram a ordem do Investigador Johnson. O homem mais íntegro da instituição. O chefe do maior império de narcóticos. Executados a sangue frio pela polícia, a matéria já podia ser vista nos jornais: Fim! As drogas não serão mais distribuídas, acabou o reino de Vulture!

Os policiais comemoram e gritam o nome de Johnson, mas cadê ele? Todos se preocupam e o procuram, mas sem êxito. No meio de tantos mortos, o dia da glória para a investigação, a solução do caso, era estranho não ter a presença e euforia do Investigador. Até que o encontram no chão, com um tiro na nuca, descartando a possibilidade de suicídio. Então, o que aconteceu? Após alguns dias, a perícia constatou que foi um acidente. Um policial novato, ao atender o comando de Johnson, atirou em tua nuca. Ele morreu na hora, como um herói, assim como planejou. Aqueles que poderiam herdar seus negócios estavam mortos e aqueles que poderiam desmentir sua vida... mortos."



Dos porres que tomo diária e insanamente com Erik Lucas



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O VELHO E O ÔNIBUS LOTADO DE POBRES QUE ENRIQUECEM RATOS

Você não me conhece, mas me dirige olhares reprovadores. Estou no meu canto e talvez lhe pareça que eu não saque nada, porém, noto que suas ações pra mim são ríspidas. Não dou a mínima para aparências, minha filha. Tenho sofrido muito, vivi muito, e essa sua empáfia, não anula as únicas coisas que me restaram, as histórias que vivi. Sou só mais um cara, um homem comum. Durmo na rua. Rompi com família, trabalho, escola, igreja. Todo tipo de instituição. Saiba que não me orgulho disso, é dificil pra caralho, ninguém quer ficar por perto. Sou um preto, pobre, morador da periferia e corintiano. As pessoas procuram distância de qualquer um com apenas uma dessas características. Eu tenho todas.

Venho andando no meu caminho e mudam de calçada, como se somente pelo meu fenótipo eu pudesse fazer mal à alguém. Vê se pode... Ah, você não sabe o que é fenótipo? São as nossas características externas, esse seu cabelo aí, seus olhos castanhos, os olhos azuis daquele cara que acabou de levantar e sair meu lado, para sentar em outro lugar. Tudo isso é fenótipo, e ao contrário do genótipo, não determina o comportamento de ninguém. Aliás, acredito que nem os genes determinam, eles podem até influenciar algum tipo de gesto, mas vai variar mesmo do conjunto da sua percepção, tudo que você viveu e como interpreta o mundo a sua volta. Sei disso porque uma vez trabalhei na casa de uma dona que era professora de Biologia, gente boa ela, me ofereceu almoço e tudo. Eu só estava lá para pintar as paredes, mas conversou comigo e não interrompeu meu trabalho, nem o dos meus companheiros, confiou em nós e passou a falar sobre as coisas que sabia e questionar sobre as que nem tinha ideia, como pintar paredes por exemplo. Lá na casa dela eu aprendi esse negócio de fenótipo, genótipo e percepção, achei que nunca fosse usar, mas cá estou eu, falando sobre isso, cercado de gente que não está nem aí pro que eu acho. Eles apenas me olham, fazem cara de nojo, respiram contra o vento, e se mandam pro fundo do ônibus.

Talvez acreditem que eu não mereça estar no mesmo transporte que eles, pois não paguei essa passagem e também não estou indo ao trabalho, só estou ocupando um lugar. É foda... Eu pedi mesmo, pedi pra entrar pela porta de trás e me sentei no canto da janela, assim vou olhando o caminho até o centro da cidade e não puxo papo com ninguém. Apenas observo suas expressões. Sou um cara velho, já disse isso. Não me importa mais passar boa impressão pra ninguém. A surra que levei essa madrugada foi forte. Acredito que meus ferimentos e a sujeira das minhas roupas estejam incomodando esse pessoal "bem sucedido" aqui. Não são nem sete horas da manhã e esse ônibus já está lotado, tem uns caras bem vestidos se achando muito importantes por fazer dinheiro pra outro. Eu não me submeto a isso e acho graça nos homens e mulheres tão fracassados quanto eu, metendo o louco só pelo motivo de eu não estar cheirando bem, dentro do ônibus deles. Façam-me o favor! Vocês levantaram cedo, completamente derrotados para estar nessa lata velha, e com certeza chegarão tarde ao abatedouro de sonhos, ou firma, ou empresa, ou o caralho que vocês queiram chamar, o lugar que suga 16 horas do seu dia, e paga mal e porcamente, por somente 8. Somos todos fracassados nesse percurso.

Entrei numa briga? Sim. As ruas são cheias de armadilhas, e é preciso se defender. É como sua vida no escritório sujo que tanto glorifica, ou a loja maldita em que trabalha,e rouba também seus feriados e finais de semana. Dá pra contar pouco com a ajuda de um pobre diabo, mas na maioria do tempo é preciso de desviar do mijo do cachorro, do lixo que jogam perto de você, do bêbado desgraçado que tenta perturbar a única hora de paz que um homem pode ter que é o momento de dormir: Simplesmente morrer algumas horas e depois voltar. Aí não tem jeito, quando tentam me roubar isso, é porrada mesmo. Tá vendo meu olho, né? Está te assustando tamanho o inchaço. Deixa eu explicar, levei um soco no supercílio. Sim, essa pele fina embaixo da sobrancelha. Isso é sensível a qualquer parada, corta fácil. Pois bem, foi um soco e logo ficou do tamanho de um limão. Essa coisa sangra, e não tem sal, não tem bicarbonato, mertiolate, povidona, porra nenhuma, que faça estancar. Eu revidei, caí do chão e ralei a cara mais ainda. Machuquei joelho, costas, canela. Fodi até as churréias. É, é essa parte aqui que junta os dedos às mãos. Tá tudo desgraçado. Corpo, mente, vícios, palavras, ideologia...

Acho que um soco igual ao que eu levei pode deixar um sujeito completamente cego. Eu fiquei um pouco, e ainda estou enxergando mal. Golpes assim reduzem a capacidade do nego. Cambaleei, bati no vento e ainda ouvi risadas e xingamentos. Logo, pensei comigo "O fracasso de todos esses anos virou homem, cresceu e veio tirar uma com a minha cara. Vou deixar bater..." Não doeu tanto quanto o jejum do meu time até 77, era uma época dificil. Pessoas como você não ligam pra isso, mas é a única alegria que eu tenho. Sabe, em 1976 eu estive no Rio com uns amigos, pra falar a verdade nem sei como chegamos lá. Invadimos a cidade, o campo, tudo. Os cariocas ficaram bestas, era maloqueiro branco, preto, japonês, rico e miserável, tudo junto, tudo por um time só, todos com um desejo só. Não importava se o outro tava devendo, fedido, fodido, machucado... Era só alegria, cerveja, futebol, coisas simples que não excluíam nada de ninguém, só aproximava aquela corja de desgraçados.

Em 2012 trabalhei com um judeu maluco Santista e um gordo filho da puta São Paulino. Meu time na Libertadores e a velha piada maldita. Na final, eles queriam distribuir camisa do Boca pra todo mundo, me falaram que eu seria como um São Caetano, vice na Liberta e motivo de chacota pelos rivais pra sempre. Isso dava raiva. Já era muita humilhação ter que enriquecer gente assim, e ouvir que a única coisa que me trazia um pouco de alegria não daria certo, dava vontade de estrangular cada um deles. Mas ganhamos, era 04 de julho, e eu nem dormi. Fui pro serviço com a mesma camisa que estou hoje, a velha surradinha que ganhei do meu filho em 2000, ano do primeiro mundial. Foda-se, se não gosta do meu time, é parte da minha vida, e como já disse, essa sua empáfia não pode tirar isso de mim. Mesmo que as listras brancas da minha camisa estejam marrons e o Batavo central completamente podre, nada vai apagar isso de mim. Pois bem, cheguei no estoque gritando, eu era o campeão da América! Os chefes nem ligaram, continuavam ricos e eu só mais um empregado atrasado. Mesmo assim, aquele momento eles não descontariam do meu salário ridículo. Tinham o poder de me mandar embora, mas não de anular a noite anterior e os dois gols que calaram os sujeitos que preferem a morte a admitir que meu time é foda. Mandei tudo às favas, não me submeteria mais a porra nenhuma. Depois de abandonar aquela merda toda, fui campeão do mundo. Minha rebeldia trouxe bons momentos, minha filha... Eu sou só mais um, e embora você tenha pena de mim, não sou um coitado. Pelo menos não me sinto um.

Outra mulher saiu de perto de mim agora. Eu não tenho mulher, não mais. Talvez o soco e os ferimentos não doessem tanto, se eu tivesse voltado pra casa, e uma boa alma que estivesse a me esperar -  podia ser irmã, mãe, esposa, filha, não importa - cuidasse de mim. As mulheres tendem a ser mais cuidadosas desde sempre. Acho bonito sentir alguém que se preocupa com suas feridas, tanto internas quanto externas. Não tenho isso faz tempo... Não fui feito pra receber cuidados. Afasto-as de mim. Por isso ando desse jeito, com roupas sujas e exalando suor. Aquela senhora toda arrumada com uma bolsa falsa da Calvin Klein - eu sei que é falsa pois eu mesmo já vendi delas nas ruas de São Paulo - deve ter se incomodado com a merda das bactérias que vivem nos meus pés. Existem também nos pés bem feitos da loira cinquentona que ainda anda de ônibus, mas ela tem um banheiro pra lavá-los e uma pedicure para desencravá-los. Já no meu caso, as bactérias vão comendo a pele, bebendo o suor e defecando a cada instante. Não tem chuveiro quente e sabonete bom nas ruas. No máximo, o cara do posto de gasolina me deixa aproveitar a ducha. E é esse o resultado: Bosta de seres que nem são vivos exalando podridão de um cara, que também não existe, espantando coroas classudas com suas grifes pirateadas. As rainhas dos transportes coletivos, na mesma merda que eu, só que de banho tomado.

Meu supercílio cortado, minha roupa suja, meu tênis fedendo, minha mochila que atrapalha, meu cobertor de flanela de mendigo... Tudo enoja esses caras. Acontece que no posto de saúde do Jardim Brasil, eu só sou atendido se entrar na emergência, em noite de plantão, com uma faca cravada no cu. Não há onde lavar minhas roupas, muito menos um lugar privado para me vestir e me arrumar como mandam as regras de boa imagem. Eu não tenho patrão pra impressionar, eu sou só mais um de olho no caminho e evitando papo.

Antigamente não fazia esse caminho, era pela Paissandú direto e já chegava na Praça, pode ser também que eu pegasse outro busão pra vir pra cá. Minha memória é fraca. Gosto dessa pichação, essa aí, aqui na Brigadeiro Tobias, do lado do motorista, nessa obra que nunca acaba "Quantos pobres são necessários para fazer um rato rico?" Você não lê essas coisas , né? Lê esse Grey aí, já vi muitas nas ruas com ele. Deve ser bom... Não olham nem de lado, atenção toda voltada para a história desse homem. Sabe, a mensagem do maloqueiro que fez isso também é boa... Acho que deveria ouvir, sem essa marra toda que te fez levantar o mais rápido possível, sem medo de cair na descida em curva do mercado do Baiano.

Estamos quase chegando na Praça do Correio, pode explicar aí pro "Amor" do seu celular, que o cara mal cheiroso do seu lado não te assaltou e nem falou nada que te ofendesse. Explique também que só estou vestido de fracasso, não ofereço perigo à ninguém. Olha, já trabalhei perto do ponto final desse ônibus. Era uma loja de chapéus, no Largo do Paissandú. Uma vez atendi uma mocinha como você, toda apaixonada pra comprar um chapéu estiloso pro namorado. Ofereci o melhor, brinquei com o tamanho da cabeça do cara que seria presenteado com a do meu amigo Paraíba que dividia as 08 horas infinitas do dia comigo. Ela comprou, elogiou o atendimento e se foi. Não sei se o namoro ainda persiste, mas era assim como você, além de bela, toda insegura e cheia normalidade. Me parecia chata só no jeito de falar e caminhar.

É, me dei ao luxo de também fazer pré julgamentos a seu respeito. O ônibus dos pobres que enriquecem ratos chegou ao ponto final. Aqui eu me despeço, vou procurar outro lugar pra desistir de alguma coisa e ser julgado por outra turma de miseráveis. Não tenha preocupação em se desculpar ou mudar sua ideia sobre mim. Afinal, eu sou só mais um cara comum, sentado no canto, de olho no caminho e evitando papo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

ÁGATHA, A VADIA QUE TAMBÉM PRECISAVA DE CONSULTAS

Naquela noite Ágatha estava de folga e resolveu descer da nuvenzinha que a distanciava dos mortais, saiu pra curtir um cinema com uma amiga que não via há tempos. Duas almas perdidas em máscaras, duas belas mulheres que encontravam em seus medos uma forma de união... E troca de material suficiente para usar de prova em um tribunal caso fosse preciso. Ramona era mais um dos demônios que Ágatha arrecadou no inferno. Não se sabe realmente o motivo dessa aproximação, as moças costumam não gostar de ninguém que conhecem em festas, porém, na noite em que se viram, seus males estavam alinhados, e quando isso acontece, não existe maneira de fugir e negar o que está escrito no destino, resta apenas aceitar e viver.

Diferentemente da vadia que cobrava por almas, Ramona era um ser angelical no meio de todos os outros. Era dificil imaginar uma mulher com aquela aparência de menina, que deixava os homens loucamente apaixonados apenas por existir, sofrendo por um cara. E ela já tinha sofrido por alguns, até que decidiu revidar e não se apaixonar mais. Já tinha sido a esposa perfeita e relatava que não havia tido nenhum bônus com isso, não ganhou admiração, muito menos reciprocidade. Amou e fizeram pouco disso, resolveu então não entrar novamente nessa coreografia complicada. Podia abusar dos decotes e das provocações, porém, não acreditava mais em promessas de laços eternos e sentimentos verdadeiros. Caiu na bagunça, vivia em noites regadas à riffs malignos, exibições, álcool, sexo e drogas. Toda a diversão que o leitor puder imaginar. Também dividia drinques com Satanás, que ficava muito feliz em ver seus seguidores sem medo dos olhares de reprovação, apenas pecando em alto e bom som para exorcizar tudo que os atormentava na vida.

Como garotas normais, seguiram seu caminho até o shopping para assistir Amy, Ágatha não era tão fã da cantora, a considerava fraca por não saber superar o fim de um relacionamento e deixar se entregar aos vícios, mas a música de Winehouse mexia com sua alma. Ramona trazia seu amor pela estrela no peito. Sabia todas as histórias, se identificava com tudo relacionado, chorava o fato de também só amar o cara errado e tentava convencer sua amiga descrente dos relacionamentos de que o dia em que se apaixonasse, passaria a entender melhor suas aflições. Na volta pra casa, as duas discutiam tudo que absorveram daquele filme e daquela mulher:

- É oficial. O amor não existe. - Disse Ágatha com as mãos completamente engorduradas devido à quantidade obscena de manteiga que pediu em sua pipoca .

- Existe sim, bi. Esse Blake maldito que se aproveitou dela. Ela o amava.

- Olha, eu só acredito na reciprocidade. Eles não estavam na mesma vibe, logo, não era amor. Partia de um só, as chances de dar merda eram de 10 bilhões em 10 bilhões.

-Não acho... Sabe, é dificil quando você ama alguém, achar que o cara te fará mal. Eles usavam drogas juntos, ela acabou se entregando... Era mais fraca que ele, mas mesmo assim continuou amando. Dedicou músicas, focou a arte dela toda pro amor que sentia... O filho da puta que não se importou com nada, a tratou como se fosse só mais uma mulher. É dificil demais suportar isso sobriamente, nas drogas e na música ela tentava fortificar a relação. Não aguentou. Amy era uma mulher maravilhosa, viveu seu amor da maneira mais intensa que pôde.

Uma das coisas que mais encantavam Ágatha, em Ramona, era a força com que a moça que já sofreu inúmeras vezes defendia esse sentimento. Amor, amor, só se falava nisso.

- Sabe, eu não consigo entender. Eu quero amar, aliás, eu amo e você sabe. Mas não consigo emburrecer desse jeito. Mesmo quando você ama demais, você não vira o outro, é impossível controlar outra pessoa. Isso faz mal. Somos seres diferentes e temos a capacidade de amar exatamente por isso. Quando o outro não está sincronizado com você, você se fode. Porque se você quer muito uma coisa, não vai sossegar enquanto não tiver, fará de tudo pra conseguir. Se o outro não quer o mesmo, não vai empenhar a mesma força, tampouco reconhecerá os seus esforços. Fica o tanto fez pelo tanto faz, e isso não é amor. Não pra mim. Acho que amar, é ter alguém que aproxime coisas boas, não alguém que afaste, que te destrua. Tem que sair logo quando perceber que não seguem a mesma estrada.

Ramona concordava em partes, era preciso muita inteligência emocional para sair de uma situação dessas. Mesmo dizendo que não voltaria a se envolver com o amor, ela havia se apaixonado, e novamente não era correspondida. Ágatha entendia os dois lados da história da amiga e ficava intrigada. Como uma mulher daquela, que era desejada por vários homens, podia continuar a sofrer por um cara que não a amava com a mesma intensidade? Talvez a resposta estivesse nas transas, mas recorrendo novamente aos escritos de Henry Miller, também entedia que "O sexo não vive uma experiência separado, apega-se também à pessoa que o possui" e era isso. Ramona havia se viciado no homem, em suas histórias, em seu jeito de ser. Se o vício fosse o sexo, se curaria facilmente.

- E você... Ama alguém assim, Ágatha? Já se viciou em alguém?

- Eu me vicio sempre, esse é o problema. Sou viciada. Mas sou o doente que não admite nem fodendo. Eu me excito demais com meus demônios, mas se eles não estão ardendo no mesmo grau, eu entristeço. Desisti de forçar a barra, passei a me controlar. Posso estar queimando, mas se não estiverem no mesmo nível, não chego beijando, ajoelhando e rasgando a roupa. Aprendi que não vale à pena ter um tesão não correspondido... Perdi muito tempo agindo assim, viveria transas muito melhores se esperasse um pouco mais. Bom, como diz a música: O que está feito, está feito.

- É, eu sei bem disso. Sempre corro atrás, demonstro tudo que sinto, porém, sinto muita falta de ter alguém ardendo junto comigo. Que sinta minha falta, que peça por mim...

Elas se olharam e interpretaram uma o espírito da outra, eram completamente iguais. Uma era a versão forte e a outra a versão mais amável, se entendiam. De certa maneira, sofriam as mesmas angústias. Ramona continuou:

- Te entendo, por isso parei de sair com vários caras. Me interessa apenas um, ele que mexe com tudo que está em mim. Não me importo, nunca pedi para que ele me amasse. Quero apenas aproveitar os momentos que temos juntos, isso me faz bem. Me sinto trouxa quando sofro por ciúmes e tento me afastar, mas não há muito o que fazer ou do que fugir. Ele me faz bem. Gosto do que sou quando estamos juntos.

- Nós e nossa paixão por canalhas né, viado? O jeito de viver no "Não estou nem aí, eu sou assim, você vem porque gosta" é deveras apaixonante... Te contei?? Abortei aquele carinha que só me mandava mensagens na madrugada. Não atendo mais, não mereço isso. Só me procura pra trepar... Por que caralhos eu aceitei isso da primeira vez? Ah é, eu sempre quero transar. Devo ser doente. Mas sério, quando você for homem, não me procure só pra sexo. Até gostava do feedback dele, dizia que eu era muito gostosa e com isso garantia a próxima foda, mas sei lá, isso me cansou demais, bi. Sério, assunto zero do carro até o motel, e quase nada do motel até em casa. Me sentia uma puta comum, uma mulher comum. A única coisa que eu não quero na vida é ser uma mulher comum. Dá pra imaginar isso? Eu, que falo pra porra, não tinha assunto com o cara que me comia. Foi a gota d'água! Matei o cara na Avenida Central, às cinco horas. Não era amor, era um tesão em fogo baixo que servia pra inflar o ego.

Ramona ria descontroladamente das histórias de Ágatha. Provavelmente era uma das poucas pessoas que sabia detalhes do que se passava no mundo daquela maluca. Tinha videos, fotos, relatos, tudo relacionado às aventuras e consultas em que a amiga louca se metia. Elas se confiavam esse tipo de coisa, trabalhavam como cúmplices, e o elo feito naquela noite infernal só se fortalecia.

- Ai sua doida, tá completamente certa! Vou ser sincera com você, te acho uma mulher muito interessante. Quando eu for homem, jamais te procurarei apenas pra trepar. É impossível se aproximar de você só pra isso. Eu gosto do jeito que você fala, das coisas que conta e da maneira que é. Sou viciada em você também.

- Obrigada por me aturar, viado. Você deveria mesmo ter nascido homem pra casar comigo. Me entende melhor que qualquer um.

Poderiam virar a madrugada falando de tudo que tinham medo e também dos melhores dias que passaram uma do lado da outra, mas resolveram dormir. Cessaram todas as vozes de medo num abraço, ali se esqueceram do sentimento de culpa, amassaram seus papéis de trouxa e se ligaram ainda mais, num pacto que só os demônios eram capazes de entender.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

TEMPERE-SE COM MUITA PIMENTA ANTES DE ENTRAR NO MEU MENU

Eu não recuso comida, sob hipótese nenhuma, experimento tudo quanto é porcaria ou especiaria gourmet que me servem. E por comer de tudo, concluí que alguns pratos apenas precisam de mais pimenta do que outros. E quando a pimenta não basta, quando é necessário provocar um sabor diferente, a única coisa que salva é o wasabi com shoyu, mas aquele wasabi satânico, que faz chorar e ao mesmo tempo devorar ferozmente cada pedaço, como se fosse a última refeição decente disponível na Terra. 

Aprendi uma receita, uma espécie de refeição de socorro, fundo de despensa, coisa de rolê do fim de mês. Gororoba simples, mas feita com boa intenção, apenas para matar a fome imensa que o tédio e as situações difíceis provocam na gente. Os condenados a dividir mesa comigo, sempre estão disponíveis no período em que só há esse tipo de coisa no menu do inferno. Fazemos do pouco um banquete, transformamos água em qualquer bebida alcoólica, contamos nossas histórias, dançamos nossos problemas, e em cenas dionísicas, nos esbaldamos em porres deliciosamente memoráveis.

Lembro que uma vez recebi um ser que estranhava esse tipo de festa. A princípio se isolava de todos, mas com o tempo, e também porque diversão gratuita era tudo que lhe faltava, acabou se fantasiando de um de nós, e com isso, degustou a maneira de loucura que só a gente sabe proporcionar. Se assustou, gostou, esqueceu da merda que o encalacrava, vivenciou a presença dos deuses e do diabo. Como toda visita que repara em cada canto da casa e reprova o comportamento dos anfitriões - mas não quer perder a hora do jantar- , permaneceu distribuindo sorrisos amarelos e contando os causos"absurdos" que havia guardado na mente até o momento. 

Por um tempo alertei meus demônios que aquele novato não era como a gente e que dificilmente se portaria como tal. Estava completamente enganada! Bastou uma segunda festa, para que se entregasse à cerimônia alcoólica dos seios das deusas e se mostrasse por completo. Paguei a língua. Presenciei a metamorfose do lado certinho, para o que chamam de pior lado. É isso que eu procuro nas almas que condenam a mim, é disso que gosto. O pequeno ser assumiu então seus vícios, bebia e fumava como gente grande, manjava de coisas excitantes, entretanto, possuía certo amadorismo... Contudo, exibia-se agora sem medos. Ajoelhou e deu a cara a tapa. Ganhou diversos pontos. Ainda não entendo o motivo de esconder esses gostos, essas quedas por coisas que todo mundo teme. Questão de status ou obediência cristã? Quem sabe? 

O que me incomodava no calouro era o fato dele só me procurar quando estava na merda. Nunca sentou-se no divã, pegou uma bebida e me contou algo bom... Normal. As pessoas são assim, só procuram os amigos quando estão na mais profunda bosta. O único problema é que eu não fui treinada para aceitar coisas normais. Em bosta eu dou descarga. Não piso, não examino, não dou tchau. Simplesmente dou descarga. Mando pro esgoto e pronto.

Se meus olhos falassem, certamente gritariam o mal estar que a falta de entusiasmo presente em coisas certinhas me causa. Também não sou besta pra ficar tirando onda de heroína. Coisas bonitas me encantam, sim. O que causa vontade de vomitar, mesmo sem ter comido nada, é isso de ofertar apenas momentos ruins. Adoro dramas mexicanos, decorei falas das novelas exibidas nas tardes do SBT e as uso em diálogos corriqueiros, mas procurar viver o dramalhão e esticar ao máximo os episódios, para que todos tenham pena da protagonista coitadinha e odeiem ainda mais o vilão, é extremamente chato. Desisto de histórias assim, elas só tem graça - e nem tanta- nas telas de televisão. Não me apetece acompanhar essas tramas em prints de celular, nem nas conversas pouco conclusivas que temos em bares. Muito menos nas minhas madrugadas dedicadas aos porres Stônianicos com Satanás. 

Qualificação máxima em mediocridade, é insistir em ouvir causos que não melhoram minhas futuras análises e permanecer em algo que não provoca mais. Eu receitei os maiores pedaços de carne, as doses mais fortes, misturei ingredientes que poderiam resultar num prato muito melhor. Mas paladar pobre é dificil de ser aguçado. Acostuma-se facilmente ao feijão simples com banana. Se recusa a qualquer restaurante sofisticado e também não entra nos sujinhos da Vila. Gente assim não se arrisca no dogão da esquina, mas também não ousa um food truck hipster frequentado pela galera meia boca que se diz fã dessas tendências. Paciência... Paciência? Paciência é o caralho! Não trabalho mais com isso. Nunca trabalhei. Peço que jamais me ofereça apenas o seu menos como motivo de consulta ou como sabor de pizza. Me conte coisas boas, cometa loucuras e venha rir delas comigo. Traga tudo isso com pimenta, por favor. 

Lealdade. Esse é o preço dos pratos por aqui. Mostre-se filho da puta desde o início. Seja como o bacon, que em nenhum momento esconde o mal que pode me fazer, mas também esfrega na minha cara o sabor único que diferencia e torna especial a comida feita pela vó, ao mesmo tempo que caracteriza o pecado da gula nas 10 fatias cancerígenas, obesas e deliciosas, presentes no Ezequiel 25:17. Se você for uma salada, regue-se no charme desgraçado de sentir tudo de maneira verdadeira, enfeite-se com frutas e harmonize-se com os mais variados tipos de queijo. Não esconda suas glórias em segredos de receita, mas também não me ofereça apenas as desgraças presentes nessa guarnição. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

RESTOS DE PRAGA E FOTOS RISCADAS JÁ NÃO ME INTERESSAM MAIS

Eu pedi que não houvesse meio termo em nossa convivência e clamei por sua alma a cada respiração que demos juntos. Jurei não me importar com seu ódio, praguejei sobre tudo o que passamos, e mentindo pra mim mesma, aguardava ansiosamente sua volta. Bradava a todos que não teria medo do reencontro, mesmo assim evitava ao máximo frequentar lugares que você pudesse estar e recusava qualquer trago, qualquer perfume, qualquer porre, qualquer causo ou drama que envolvesse sua presença.

Assim então o desejo se cumpriu, nosso ódio transpareceu nos gestos, todo o entusiasmo de nossas memórias se solidificou no tédio. Não encostamos a cabeça na parede e sofremos a overdose um do outro, todas as promessas tiveram fim e fingimos que nada houvéssemos dito ou sonhado. Sensação de dever cumprido. Desejo saciado, tarefa concluída. Os vampiros voltaram a Gomorra, não há mais sangue para sugar, ou sustentar essa relação.

Segui mais, e bem melhor, sem tua presença. Mas os demônios anunciaram sua volta, e mesmo com medo de fraquejar, permaneci aqui. Isso ainda te doía, pois eu sempre estive. Talvez agora seja compreensiva e menos egocêntrica, mas ainda estou no lugar que você encontrou e deixou. Não que eu tenha passado a aceitar tudo, ao contrário, passei a me importar menos. Seu ar mediano me enojou, provocou risos sob um leve desespero. A felicidade forçada e a tentativa de reaproximação me renderam torções e dores demasiadamente fortes no fígado. Ouvir um convite seu, era como rever um filme ruim. A verdade é que eu poderia tomar porres homéricos com os Bárbaros mais cruéis do vilarejo, mas não voltaria a dividir a mesa com você. Lo siento, eu vivo nos excessos. Eu prezo os escândalos.

Não há mais preocupação em ajudar, nem a necessidade de ouvir seus problemas.Quer fazer merda? Faça merda. A abstinência de nossas conversas diárias cessou. Exclua-me de seus planos, não existe um calendário com finais de semana em que eu possa te ver. As escapadas durante os dias de trabalho também não existem mais. Mudaram os hábitos, gostos e lugares. Nós nos superamos e agora só resta aceitar isso.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

HOJE ESTOU SEM MÁSCARAS

Eu não tive pai herói, sinônimo de autoridade da casa, exemplo a ser seguido e temido por gerações e gerações. Tenho um pai, que é visita, amigo da mãe, ex de mãe, estranho para os amigos, telefonema fixo em datas especiais ou pedidos de favores...  Enfim, não tive relação a dois pra me inspirar e desejar igual, nunca fiz parte de um casamento, nenhuma das relações que vi persistiram, elas apenas terminaram. As partes envolvidas seguiram suas vidas normalmente, melhor do que quando estavam juntas, logo entendi que dividir a alma com alguém é algo complicado, requer muita paciência, mas é também sem demasiada importância, já que pode ser facilmente substituído. Embora eu ache que seja dificil também, e desde cedo detesto coisas difíceis. Talvez seja preguiça, medo, falta de iniciativa ou puramente um apego à superproteção que me blindou contra qualquer ameaça de sofrimento. Eu morro antes do tiro, eu tenho a overdose antes mesmo de comprar a droga, eu choro e fico de luto sem ao menos existir um cadáver. Mato todo o desenvolvimento e escrevo a síntese, presumo um final parecido com os que já li e concluo a moral da história. Não leio a frase toda, adivinho o restante da oração e dou a situação por terminada.

Aqui em casa somos três mulheres, duas que viveram dois casamentos falidos e uma descrente de qualquer tipo de relação. Essa última sou eu, que acredita piamente que está presa na história dos outros e não escreve a sua. Isso quase me mata todos os dias. Mata aos pouquinhos a cada amigo casado, a cada amiga viajando pra dançar fora, a cada porre que não tomei , a cada tatuagem não feita e a cada instante que penso enlouquecer, mas sou barrada pela razão. Alguns talvez não acreditem, mas eu não sou louca o tempo todo. São apenas máscaras, e sempre que estou sem elas choro de medo, um pavor filho da puta de não viver nada querendo viver tudo ao mesmo tempo. A angústia nunca passa, às vezes penso em me livrar dessa sanguessuga pesada, mas de certa maneira ela também me protege. Me ajuda a interpretar a heroína na janela da imponente fortaleza, pregando ser desapegada de tudo, secando qualquer fonte de fragilidade, a deusa, a diaba, aquela sempre pronta pra qualquer adversidade. Isso é, possivelmente, um vício de profissão. Levei a falta de graça e a fantasia utópica dos textos publicitários para minha rotina. Preciso parecer sempre bem e isso basta. Isso não cria demanda para um público que suporta ouvir causos ou dividir as noites para conversar com alguém completamente confuso, não cria solicitações para coisas simples, apenas abre possibilidades para satisfazer coisas efêmeras, felicidade instantânea, vida de comercial de cerveja. O pior é que a armadura às vezes pesa e não há lugar pra tirar, resta ajustar a postura e seguir atuando. Mas atuando pra quem?

Não imagino ser a melhor parte do dia de qualquer pessoa que me rodeia, aliás, eu tenho uma dificuldade imensa para lidar com alguém que realmente goste de mim. Vejo declarações cheias de entusiasmo,  amigos descrevendo as pessoas que admiram, e acho tudo muito lindo e inalcançável, talvez isso é o que me faz odiar momentaneamente qualquer desconhecido da mesa. Não sinto que causo o mesmo, ou que um dia poderei causar, me resta apenas a curiosidade.

 Outro dia saí com uns amigos e tive vontade de baixar a guarda e parar de odiar os randons por uns instantes, simplesmente pela alegria que um demônio apresentou ao descrever a amiga, ao expor os sonhos dela, de estar feliz por conquistas das quais não fez parte, simplesmente por estar contente com a presença da moça. Isso mexeu comigo, não culpei meus pais por não me ensinarem acreditar em relações simples, apenas refleti sobre a sensação que ela dava aquele rapaz, coisa que eu imagino nunca ter dado a ninguém. Digo, fazer com que alguém queira estar por perto de maneira gratuita, sem interpretação, sendo a trava desmontada. Isso me rendeu algumas insônias... É, acho que está na hora de tirar as máscaras e abandonar esse Édipo. Obrigada mãe, pela superproteção. Valeu pai, pelo carinho. Vocês tentaram e quebraram a cara, acho que é a minha vez de tentar e talvez quebrar também.  Quem sabe?

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

ÁGATHA, A VADIA DAS CONSULTAS RÁPIDAS E GROSSEIRAMENTE NECESSÁRIAS

Ágatha estava cansada dessa porra toda, de gente pedindo conselho o tempo todo e das malditas lembranças que apareciam em suas conversas com demônios. Embora já conseguisse falar sobre pragas sem chorar, ainda não se sentia bem lembrando de alguns seres desgraçados que exigiram dela algo que ainda não sabia oferecer, talvez ela merecesse a maldição, talvez apenas tivesse sido mal compreendida. Enfim, buscaria na alma de alguns condenados um compreendimento sobre infortúnio nela lançado. A moça tinha ciência de que não vivia uma calamidade assim tão cruel, mas volta e meia, tinha vontade de anular tudo que havia escutado, para que pudesse viver de maneira mais leve.

Recebeu um cliente aflito que a atacou sem meias palavras, fazendo um bombardeamento de perguntas. Ela planejava uma consulta rápida, porém grosseiramente necessária. Não tinha tempo e nem vontade para atender causos entediantes, arrancaria o que ele tinha de pior, com objetivo de eliminar sentimentos mínimos de uma vez.

"Já fez sexo a três?"

"Seria mais fácil responder quando eu não fiz. Mas sinto que não é isso que veio procurar. O que realmente você quer saber?."

"Eu não consigo sentir nada, me ajuda? Acho que entrei num casulo muito grande..."

"A gente que constrói nossos casulos, filho. Você criou isso, certamente poderá aguentar. Está com medo de bons momentos? Não pode viver nessa proteção o tempo inteiro, relaxe que uma hora isso se rompe. O que o aflige tanto?"

"É que tenho andando muito triste, queria saber como faço pra ser feliz, você sabe o que posso tentar?"

Nessa hora Ágatha resolveu não responder rispidamente, pensou, serviu-se de um vinho barato e olhou pros cantos da sala, como se as paredes daquele lugar pudessem ajudar a compor uma resposta convincente. Como caralhos aquele ser de espírito atordoado poderia aconselhar alguém a ser feliz? Voltou seus olhos enormes para o rapaz, e prosseguiu:

"Não sei te responder, talvez se você souber o que está te envenenando, achará a receita para o antídoto... Vomite os pedaços embolorados do pão que o demônio te ofereceu, cuspa na cara de Deus, se isole, morra por uns dias. Ressuscite para encontrar novos parceiros de insanidade... A cura da tristeza deve envolver coisas assim. Veja bem, estou somente sugerindo, sabe que tudo parte de você. Nosso conceito sobre a felicidade pode ser diferente... Anyway."

"Digo, acredito que tenho a receita, mas não consigo por em prática. Não sei o ponto certo de tirar tudo do fogo e me servir, também não sei se deixo esfriar ou se me empaturro com tudo ainda muito quente. Como eu faço? Sabe, é como se eu já tivesse feito tudo, mas mesmo assim nada mudou. Ainda sinto tudo muito cru. "

"É o que tenho me perguntado todos os dias, mon chér. Quem sabe falte vinho no tempero de nossas carnes, talvez criemos anticorpos nos alimentando um do outro. Pode ser que, eventualmente, seja esse o rompimento do casulo, ou o sabor que tanto procuramos... Aceita beber comigo essa noite?"

Ele era um dos poucos clientes que não buscava respostas no álcool, recusou o convite da moça e agradeceu o papo. Ele se sentiu melhor em ver que Ágatha não era inatingível, não se fez de boazinha e cutucou a ferida onde mais doía, tanto a dele, quanto a dela. Seguiu seu caminho e deixou a moça livre para morrer um pouco.

Assim que o rapaz deixou o recinto, Ágatha pediu ajuda para Eric Clapton, que clamava à Layla que parasse de se esconder, e que também acalmasse a mente daquele pobre homem, cujo nome estava listado entre os maiores guitarristas do mundo. Como de costume, o sorriso cínico da vadia surgiu, agora tudo parecia piada. Permaneceu bebendo e dançando sozinha, fazendo o melhor que podia daquela situação, aumentou o som,
a música traduziu seu sentimento e a ajudou a enterrar a praga. Finalmente tinha externado o pouco caso que deveria ter dado às palavras que ouviu quando foi amaldiçoada. Sentiu a presença de Satanás, assumiu sua melhor forma, ofereceu um drinque aos demônios da guarda e brindou à morte do praguejador.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

NÃO ABRO O CONSULTÓRIO PARA OS MEDROSOS QUE CLAMAM POR CAOS, MAS QUEREM MESMO É MISERICÓRDIA

Existem pessoas que vão à igrejas, eu procuro paz no caos. Me agrada algo que transborde qualquer tipo de euforia, que vença a preguiça de interagir. Os dias em que resolvo socializar sempre me rendem bons causos e risadas escandalosas. E não há nenhuma outra coisa no mundo que eu goste mais do que pessoas que me fazem rir escandalosamente e deixam de herança assuntos pra mais de meses. O consultório se abre em mesas de bares, danças ridículas, motéis baratos, casa de amigos ou até mesmo de desconhecidos. Contudo, ele só permanece aberto aos descompensados que tem coragem de se confessar e dar crédito a uma alma tão perdida quanto a deles, a minha.

Uma noite saí do inferno com a deusa Strutter e um pobre demônio sem entusiasmo. Faríamos algo prometido há alguns anos, coisas que alguns condenados insistem em pedir quando estamos juntas. Acontece que nem sempre gostamos do mesmo cara, ocorre de forma natural, a gente sente quando um homem será nosso e nós seremos dele. Com ele ainda não havia acontecido esse pensamento sincronizado, mesmo assim, pedia uma noite conosco desde que soube de nossa parceria. Não pensei que ela aceitaria prontamente, mas se mostrou até mais animada que eu - que entro em todas suas loucuras sem pensar- talvez fossem as doses fortes que já tínhamos tomado, mas me confessou que era apenas vontade mesmo. 

No caminho tudo parecia ganhar vida, menos um motorista, que sozinho observava pelos retrovisores três indivíduos no banco de trás, com tesão incontrolável e respiração forte que embaçava os vidros. Dificultávamos  a concentração do pobre coitado, que dividia atenção entre os faróis do trânsito, nossas ações e as reações de seu amigo pedinte. Mãos por entre seios, e pernas que de tão grandes se enroscavam uma nas outras, risos irônicos, lambidas que arrancavam piercings, curiosidade dos outros carros, garrafas e calças abertas, provocações de nível absurdo para os ouvidos destreinados do condutor. Sempre achei engraçado como os homens se portam quando são agraciados por duas mulheres, eles não sabem se agradecem aos deuses ou se pedem para ir direto ao inferno. Denunciam no olhar, sussurros e xingamentos o quanto é satisfatório entrar em êxtase pelas provocações da praga mais prazerosa de aguentar. Estar no meio de uma maldição assim, desperta o pior lado de todas as partes envolvidas, até mesmo daqueles que sentem medo dos demônios que os perseguem. Cabe aos amaldiçoados entrar na dança, ou fugir... Acreditem, poucos aceitam a condição e entram no salão de festas do Diabo. São raros os que permitem se envolver pelos riffs satânicos que despertam o ritmo mais gostoso de seus corpos. 

Pois bem, naquela noite chegamos os 4 na casa do motorista, que não teve nenhuma reza maldita rogada sobre ele e serviu apenas de caminho para que a insanidade tomasse conta do seu lar. Strutter estava com seus saltos mais altos, o que a deixava ainda mais desejável. Era como se assumisse uma outra forma. Seios a mostra em renda preta, provocações públicas, um sorriso demoníaco, tudo nela inspirava e respirava sexo. Estando daquele jeito poderia comandar o inferno no lugar de Satanás. Eu estava montada no colo do ser sem alma que tirava minha roupa, enquanto bebíamos e ríamos daquela situação toda. O pobre amigo sem demônios nos olhos também tentou entrar na brincadeira, dispensei. Não me agrada atender quem sugere pouco, gosto de excessos. Mesmo que seja o dono casa, não me encanta quem finge gostar da bagunça, mas prefere a paz que embrulha o estômago. Aquele tipo que sente vergonha de seus desejos, que não se dá conta do quanto se torna patético fazendo tudo sempre recheado de mesmice e normalidade. Pessoas assim não sentem o caos, não sabem aproveitar isso, nunca enlouquecem, muito menos ousam se aproximar dos loucos. No máximo eles observam e sonham fazer igual, mas falta talento, falta não prestar, e digo não prestar no melhor sentido dessa expressão. Falta não prestar para histórias ruins, bebidas fracas e paixões tediosas. O mal de alguns caras que assistem esses episódios da minha vida, é achar que as coisas acontecem de forma bagunçada, com entrada franca para tolos. Não, não é assim que funciona. Digo, quando duas mulheres escolhem dividir o mesmo cara é porque elas o querem gratuitamente, não cabe de modo nenhum outro sujeito. Um outro nunca despertará o que o escolhido acordou naqueles seres imprevisíveis, que brigam, destroem vilas e se matam, apenas pra ter a exclusividade de uma foda. 

O chofer saiu de cena desanimado e preocupado com o barulho que poderia acordar seus vizinhos reclamões, de verdade não estava me importando com nada. Aumentamos a música, que era Fade to Black, do Metallica, com a melodia envolvente e os riffs que excitavam e me mantinham de joelhos com a boca suficientemente ocupada e impossibilitada de cantarolar o refrão que tanto gosto. Queria apenas chupar aquele ser, de uma maneira que desse vida aos seus demônios, minha vontade era sugar sua alma, assim o libertaria das histórias medíocres que contava. Um sussurro, dois, olhei pra cima e sorri, ele já não controlava a respiração, não ameaçava tapas ou xingamentos, apenas respirava mais forte. Minha deusa tomava seus drinks e observava tudo atentamente, pedi por sua presença, poderíamos melhorar aquela cena evocando o pior de cada um. Não haveria salvação, Satanás estava lá e sentíamos a força que exercia em momentos daquele tipo. Strutter, ainda mais linda, serviu-se de mais bebidas e caminhou até nós, com o sorriso mais sarcástico e excitante do universo. São coisas que não resisto: Sorrisos sarcásticos, álcool e histórias boas. De alguma maneira todos esses itens estavam servidos, e obviamente aproveitei para me empanturrar de tudo que aquela noite estava ofertando. 

A Deusa veio até mim com o som alto de Sad But True, anulando a terceira parte daquele cenário, dominando tudo e enchendo o lugar com seus gemidos e gestos sexuais, sem se preocupar com os pedidos de silêncio que o dono da casa havia feito a alguns momentos antes. Me arrancou dos braços do mortal, agarrava-me pela alma e me chupava com força, invadia corpo e espírito, fazia comigo o que bem entendia. Xingava, segurava, batia, poderia até me matar, pois eu mesma já implorava por isso. Esquecemos os demais praguejando uma sobre a outra. Eu jurava ódio, ela dizia que me amava, ele só assistia e dava o veredito "Malucas!". 

Coitado, pedia permissão para voltar à cena, não soube mandar nas loucas que assistia. Tentou algumas vezes, porém, já não despertava mais nada em nós, não tinha autoridade sobre nossos corpos e passara bem longe de dominar nossas almas. Acabou se conformando em fazer parte da platéia, conseguia apenas rir de nossas perguntas "Está assustado?" - "Não, é que vocês são muito loucas mesmo" -"Por que? Vocês está com medo? Vem brincar com a gente também!" - "Não é isso, é que vocês realmente são loucas!". Não insistimos em ter novamente sua participação, nós nos transbordávamos e mostrar o quanto poderíamos nos divertir sem ele também era bastante agradável. O diabo havia receitado doses fortes de exibicionismo, o obedecemos. Seguíamos os ensinamentos do senhor das trevas, "O inferno era um lugar de muitos", não tinha como buscar paz com medrosos, aqueles que imploram por pragas , mas quando elas chegam, pedem por misericórdia.  Isso não despe a aura. Não aguenta doses fortes e caras. Não faz o consultório se manter aberto. 

domingo, 20 de setembro de 2015

ÁGATHA, A VADIA QUE COBRAVA POR ALMAS

A música era Piece Of My Heart, da Janis Joplin, que não estava mais no último volume, mas o pedido forte de “arranque outro pedaço do meu coração agora, baby” permanecia no repeat. Ágatha não estava cansada, permanecia tranquila e tentava se reorganizar para atender o próximo cliente ou simplesmente para morrer um pouco sozinha em casa. Cinzeiro cheio, copos vazios, roupas espalhadas e a conclusão da moça: “Definitivamente esse é o lugar de uma puta atormentada pelo demônio.” Respirou fundo e trocou de música, agora mexia o corpo, ao som de Alabama Shakes, a letra e o balanço gostoso de I don’t wanna fight no more, estavam alinhando seus chakras e trazendo à tona a melhor versão daquela garota. Ela acreditava que quando a música traduzia seus sentimentos, não precisava de mais nada, sentia que seu encosto a abraçava amistosamente, e dançava todas as desgraças que já havia vivido, além de rir escandalosamente de todas as maluquices que tinha realizado para conseguir um pouco de paz. Isso valia de oração e também trazia um pouco de sorte. 

Era necessário um pouco de agito, o trabalho tinha seu glamour, aos olhos dos outros, e conferia certa segurança para ela, mas a face verdadeira de Ágatha preferia dançar entre os loucos, ouvir suas histórias e reinventar-se com paixões passageiras. Algumas reais, outras existentes apenas em seu imaginário. Contudo, vivia todas da maneira mais intensa que os pecados lhe permitiam e que o diabo havia ensinado. Gostava também de oferecer pequenos goles de sua alma a quem a rodeava, seu propósito era permanecer embriagada com o espírito dos que, de alguma forma, estavam condenados a ter a presença da perturbada suburbana em seus caminhos. 


Às vezes suas noites tinham gosto de café sem açúcar, não havia par para dançar, mesmo que ofertasse seus serviços de maneira gratuita. Ela poderia reproduzir conteúdo e provocar o mais feroz dos instintos em qualquer um, ouvir causos, ou simplesmente servir de companhia para confissões em troca de alguns copos de whisky. Porém, em noites ruins, às vezes, a requisitada meretriz de Satanás não tinha história romântica pra contar ou ouvir. Alguns clientes podiam se alegrar sem ela por semanas, ela enlouquecia por ciúmes e exagerava nos porres nesse período, mas, quando anunciavam a volta, os recebia ainda mais violenta e apaixonada. Escondia as mágoas que sentiu ao ser substituída em mordidas e arranhões, tapas e puxões de cabelo. Ágatha gostava de demonstrar da maneira mais bruta possível a importância que tinham pra ela. Batia com força pra derrubar, mas não deixava cair. Exagerar era seu dom, como leu em Henry Miller certa vez, “Era uma vadia de alto a baixo, e essa era sua maior virtude”. Não vivia apenas de vadiagens, se preocupava verdadeiramente com seu rebanho. Sabia que não acreditavam na sua versão amorosa. Talvez gostassem, e preferissem, a hipérbole que ela fazia da vida de todos. 


Essa noite teria que atender um novo cliente, ele a procurou acreditando que a louca aceitaria sexo com indiferença, sem troca de sentidos, o sexo cru e simples oferecido por qualquer ser que não renda boas histórias:


- Você realmente paga por isso? Por coisas sem alma?


- Sim. Prefiro. Não quero dar, nem transparecer, muito menos receber, carinho de ninguém. Me interessa apenas meter e sair fora. Não sei lidar com interações, eu quero que sumam depois. Não me apetece dormir de conchinha com ninguém. 


Ela fitou seus olhos enormes e bem delineados no rapaz e o analisou friamente. Era um homem bonito, com uma aura sexual que fazia com que mulheres de todas as partes o notassem e o quisessem, mas para Ágatha ele transmitia outro sentimento… Pediu um cigarro para seu acompanhante e continuou o papo:


- Não trabalho com esse tipo de coisa. Mas quero te ouvir, e faço isso por uns tragos e alguns drinques, mas na bebida e na conversa eu não quero gelo. Seja insano em suas confissões. Como não deseja a troca de almas em uma foda, te oferecerei outro tipo de serviço.


Ele ficou surpreso com a negação da moça e na audácia dela insistir em falar sobre coisas quentes, quando pra ele as mornas bastavam. Mesmo assim, acendeu o cigarro da menina, pediu os drinques e passou a divagar sobre seu desinteresse:  


- Eu pago por isso, porque já tive muitos relacionamentos falidos. Larguei mulheres, elas me largaram, as troquei por noites de farra e até por noites de trabalho. Por vezes preferia dormir do que dar uma trepada, isso foi as cansando e elas me deixaram. Então desisti. Eu pago pra não ter carinho, pois não sei lidar com essas coisas gratuitamente. 


Para Ágatha ouvir aquilo era como um torção no pâncreas, claro que carinho clichê também não era com ela. Não fazia o tipo que dormia abraçada, embora adorasse receber esse tipo de convite. Mas evitava ao máximo. Dormia de conchinha por meia hora, recebia seu pagamento e voltava pra casa. Mesmo assim, não deixava de entregar seus demônios a quem solicitava sua presença: 


- Eu acho que você nunca transou direito. Me perdoe a franqueza, mas acredito que seu problema, aliás, que a cura para essa sua preguiça, seja uma louca que te chupe apenas porque gosta de chupar e não por obrigação. Falta uma mulher que te ofereça loucura e que você aceite as sandices dela. Nem que seja algo breve, pelo menos para que essa nuvem vá embora. 


Interpretando a segura pisco alcoólica, teve a certeza de que não seria ela a salvadora das noites daquele moço, mas estava disposta a ajudá-lo a ter coragem de se permitir a uma garota anormal, dessas que não gostam de receber flores, que falam o que sentem sem esperar ocasião, um tipo de Ágatha. As filhas de Apolo com Afrodite, apadrinhadas por Hades… Bacantes, frequentadoras assíduas das festas de Dionísio:


 - Sempre me preocupei em dar prazer às minhas namoradas. Lia manuais, perguntava o que gostavam, me preocupava que elas se sentissem bem, mesmo que eu não estivesse satisfeito...


A gargalhada da moça estremeceu o bar, ele olhava sem saber como reagir, esperou que a risada cessasse, acendeu outro cigarro e perguntou o motivo do escândalo, ela respondeu:


 - Eu ri, e daria risada disso a noite inteira. Você lia sobre dar prazer? Ótimo! Mas o que você sentia? O que te movia? Que tipo de praga era preciso rogar para que seu pior lado aparecesse? É sobre essas coisas que estou falando. É com isso que eu trabalho, mon chér. Troque vontades. Por favor, não seja como uma via de mão única. A não ser que queira passar o resto de seus dias pagando por pouco... Eu prefiro gastar meu dinheiro com coisas melhores, mas não vou exigir de você os meus comportamentos, nem os meus ideais. Quer uma dica? Chegue em casa e ouça Stones, de preferência a versão de Rock me baby com as guitarras do AC/DC, isso pode te ajudar. Eu preciso ir, lamento não poder te ajudar de maneira sexual, mas gostei do papo. Chame sempre que quiser, o consultório estará aberto.


A moça levantou e deu um beijo na testa do “paciente”, ajeitou seu vestido curto e saiu desfilando seu corpo diabólico nos saltos enormes que a caracterizavam por onde passava. Ele permaneceu fumando e bebendo, agradeceu a dica e ficou de chamar a agradável descompensada mais vezes. 


Ágatha chegou em casa e ligou o som com moves like a Uma Thurman, os estranhos do Urge Over Kill diziam “Girl, you’ll be a woman, soon…” e da maneira mais cínica ela voltou para suas doses e retrucou “O dia em que eu me tornar mulher, meus caros…” E sorriu, com o prazer que somente os bons papos e o álcool lhe proporcionavam. Aquela não havia sido uma noite ruim, mas o início de noites incrivelmente melhores.